segunda-feira, 30 de outubro de 2017

Relembranças, ou um passeio até o centro de Fortaleza




http://relembrancasdemiltondias.blogspot.com.br/

Há um autor cearense, já falecido, de cujos textos gosto muito: Milton Dias. Conheci suas crônicas na época dos estudos para o vestibular da Universidade Federal do Ceará (UFC), que incluíra o livro Relembranças na lista de leitura obrigatória. Milton havia sido professor da UFC.

O estilo dele logo me cativou. Falava muito da cidade de Fortaleza, uma Fortaleza antiga para mim, mas que parecia tão próxima. Talvez por causa das ruas da cidade pelas quais andava sempre, sobretudo quando fui aluno do Colégio Militar de Fortaleza e costumava ir a pé até o centro em trajetos muitas vezes cobertos pelas crônicas daquele mestre do relembrar.

A nostalgia dos textos também contribuiu para a minha identificação; de algum modo eu me sentia presente ao ler as passagens em que contava seu amor a Fortaleza, suas reminiscências de estudante, de professor e de homem solitário: foi um cronista da saudade.

Para mim, era tempo de vestibular, e parecia que todas as decisões para a vida eram tão urgentes e definitivas, e era tão forte a sensação de divergência com a vida que levara até então, que ler os relatos tão bem escritos e sinceros de alguém que havia passado por tanto do que viria depois serviu como um farol, a iluminar o caminho a frente. Ajudou a colocar em perspectiva o presente como ele era de fato e reduziu enormemente a carga da ansiedade.

Creio que foi naquela época que a paixão pela leitura se tornou mais forte.

Um de seus textos, Viagem à Praça do Ferreira, conta como ele fizera, num certo sábado anos antes, quase o mesmo trajeto que eu fazia sempre. Saiu na Av. St Dumont, já na altura do Colégio Justiniano de Serpa (sua casa ficava na Rua Cel. Ferraz), em direção à praça. O motivo do passeio? Ir até uma livraria. Foram tantas as distrações e interrupções no caminho, que quando chegou ao destino já era meio dia, hora do almoço, e ele teve que voltar com a promessa de sair mais cedo de casa na próxima vez. 

Fiz muitas vezes, como disse, um trajeto que consistia em voltar pela Av. St Dumont, saindo do Colégio Militar, em direção ao centro, passando defronte aos colégios da Imaculada Conceição e Justiniano de Serpa (que ficam frente a frente). Depois, continuava pelo calçadão C. Rolim até chegar na Praça do Ferreira. Lembro do corredor de vento que se formava quando me aproximava da Rua Gov. Sampaio, certamente um refresco para quem andava por ali naquela horário calamitoso de uma da tarde. Chegava à praça e corria para a Livraria ao Livro Técnico que havia no Ed. Sulamérica, ainda lembro do cheiro dentro dela, de livro novo, de conhecimento ao alcance das mãos. Havia um subsolo onde estavam os tesouros quase inalcançáveis para mim na época: os livros de xadrez da Colección Escaques.

Quando “conheci” Milton Dias, também para mim o Colégio Militar e aqueles passeios pelo centro já eram coisa do passado, guardavam certa nostalgia. Guardam até hoje. O mestre cronista tinha toda razão, jamais achei um erro em suas afirmações. E hoje, quando lembro de tudo isso, é uma frase dele que não me sai da cabeça: “E tudo dói, quando vira saudade”. 

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terça-feira, 24 de outubro de 2017

Xadrez e Futebol: separados na infância! (*)





Nos grupos de discussão sobre xadrez, há somente um assunto que se intromete algumas vezes: o futebol!

Claro, estamos no Brasil, que, pelo menos até o 7 x 1, era considerado o ‘País do Futebol’. Assim, não é de se estranhar que, em meio a comentários de torneios, problemas de mate em três e outros assuntos típicos do meio enxadrístico, apareçam provocações futebolísticas (ainda que rapidamente censuradas pelo administrador do grupo, que levanta um cartão amarelo).

Num dos grupos, apareceu um jogador que também é árbitro de xadrez e de futebol! Foi o suficiente para aparecer uma pergunta sobre a eterna polêmica entre ‘mão na bola’ x ‘bola na mão’. Ao ler a excelente explicação do colega, pensei numa analogia com o xadrez:  ‘mão na bola’ é ‘peça tocada, peça jogada!’, mas ‘bola na mão’ é ‘j’adoube!’.

Haveria mais alguma analogia? Fiquei pensando depois (certamente eu não fui o primeiro). Se o xadrez é a vida em miniatura e o futebol é uma caixinha de surpresas, poderia encontrar mais coisas em comum.

Os esquemas táticos podem ser comparados às aberturas: o 1-2-7 é o Gambito do Rei, o 4-4-2 é a Ruy Lopez, o “Carrossel Holandês” é o Ataque Fegatello, o 4-5-1 é o Sistema London; e por aí vai.

Há também clara analogia entre as peças no tabuleiro e as posições dos jogadores em campo: os peões são a zaga, os cavalos são os volantes, as torres os laterais, os bispos jogam no meio-campo e a dama é a artilheira. O rei, claro, fica no gol! Até o enxadrista tem lugar na analogia: ele é o técnico da equipe (mas, graças a Deus, é bem menos xingado).

Se tem uma coisa que não deu para comparar entre xadrez e futebol foi a torcida. Neste quesito são diametralmente opostos: em campo são numerosos e barulhentos torcedores; ao redor do tabuleiro, quando muito, se reúnem alguns silenciosos perus (mães, namoradas, namorados e afins não costumam aparecer).

Mas. quando o assunto é quem foi melhor do que quem, aí fica tudo parecido de novo! Esses dias, num grupo, voltou a eterna polêmica: quem foi melhor, Fischer ou Kasparov (ou outro)? Apaixonadas razões foram levantadas por fãs incansáveis de um e do outro, fatos citados, especulações lançadas, números debulhados! Mas a polêmica nunca termina. Aí eu lembrei do futebol de novo: Fischer é Pelé, Kasparov é Maradona!

Pra quê?

Alguns protestaram, pediram pra trocar os pares da comparação, outros falaram de Neymar, Zico, Di Stéfano, Puskas, Leônidas e até Biro Biro! La Bourdonnais foi comparado a Garrincha, o injustiçado, num dos poucos momentos de concordância.

Alguém perguntou, malicioso: “Se Kasparov é Maradona, qual foi o gol de mão?”. Lembrei, então, do episódio contra Judit Polgar, quando ele soltou a peça e depois voltou seu lance; mas fez tudo isso com sua própria mão, jamais a de Deus!

Assim, do nada, percebi que se quiser, posso passar horas falando de semelhanças entre os jogos: perder um pênalti é como não ver um mate em um, o impedimento é semelhante a quando uma peça está cravada, a grande área é a ala do rei, os peões protegendo o rei no roque são a barreira das faltas etc.

São tantas semelhanças que talvez até fosse pertinente, numa licença poética, alterar a frase célebre de Tarrasch: o xadrez, como o amor, como a música, ( como o futebol) tem o poder de fazer os homens felizes!

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(*) Uma primeira versão deste texto apareceu em primeira mão no blog parceiro Reino de Caíssa

quinta-feira, 19 de outubro de 2017

Os ogros também envelhecem (*)





Há muitos anos, muito mais do que minha memória afetiva parece contar, eu começava a perceber a real dimensão que o xadrez tinha. Deixava de ser um jogo entre parentes e amigos e mostrava sua faceta esportiva, com torneios, federação internacional e, claro, campeão mundial! Busquei saber o nome dele: Garry Kasparov!

Kasparov foi o homem a ser batido no mundo das 64 casas durante mais de vinte anos, boa parte deles como campeão mundial. Aposentou-se da prática competitiva clássica em 2005 (ainda com nº 1 do mundo) e só a partir de 2015 voltou a jogar competições rápida não oficiais, a título de exibição: as pessoas adoram ver os ídolos voltando à atividade que os consagrou!

Mas, o que o velho ‘Ogro de Baku’ esteve fazendo por todo esse tempo?

Ah, ele fez coisas não menos difíceis que se manter no topo do xadrez: tornou-se ativista político e opositor de Putin na Rússia; passou a promover o xadrez como ferramenta de apoio à tomada de decisões e ao aprimoramento pessoal; escreveu livros, o mais recente deles sobre o impacto da evolução das máquinas e da inteligência artificial (em seu sentido amplo) na vida humana, hoje e nos anos que virão. Os novos desafios que abraçou ampliaram o alcance de suas ideias e ainda levaram o xadrez junto; por mais que quisesse, não há como dissociar sua imagem à do jogo.

Após tantos anos sem competir oficialmente, Kasparov aceitou o convite para participar das etapas rápida e blitz do Grand Chess Tour, que se encerraram recentemente. Um ato de coragem, é necessário admitir, pois se enfrentar a elite atual, com nomes como Aronian, Caruana, Karjakin e Nakmura, mete medo em qualquer jogador ativo, imaginem num veterano aposentado há 12 anos!

“Mas esperem, o veterano em questão é Garry Kasparov!”.

Sempre se espera muito dele, como antes foi esperado de outros mestres que se ausentaram das competições por longos períodos. O mais famoso deles, Bobby Fischer, abandonou quase que completamente o jogo no instante seguinte à conquista do título mundial em 1972 e, até sua morte em 2008, sua aura de invencibilidade permaneceu incólume.

Talvez a história de Fischer ainda ronde a mente do velho Ogro, que era fã do norte-americano, e por isso mesmo ele tenha aceitado o convite, colocado sua cara a tapas, como se diz, ou mais propriamente, colocando seu rei a mates!

Kasparov não passou vergonha, mostrou vontade de vencer, ideias e jogadas aguçadas, mas deixou o peso do tempo agir de forma irrevogável! Não o peso de seus 54 anos, ou da longa inatividade, mas o tempo do relógio da partida, que é inexorável! Quando a seta cai, ou o mostrador começa a piscar, é o fim. Assim, apurado de tempo em quase todas as partidas, estragou posições vantajosas e defendeu-se mal noutras em que podia ter salvo o meio ponto.

O espetáculo, porém, foi garantido. Milhares de pessoas seguiram as transmissões online do evento, que era coisa rara quando Kasparov ainda era campeão do mundo. Então, ainda mais que as jogadas no tabuleiro, valeu para rever os trejeitos da lenda, suas famosas caretas, seu olhar intimidador. Por um momento, pareceu que ele nunca esteve ausente.

Quando aparecerá novamente? Quem sabe? O velho Ogro levantou-se afinal, recolocou o relógio no pulso, pegou seu paletó e seguiu pensando nos lances que fervilhavam na ainda poderosa mente. Não nos deixe esperando demais, Garry. Os velhos e jovens aficionados precisam ver mais da intensa paixão que emana em cada gesto teu perante o tabuleiro. O resultado aqui é o que menos importa: em termos de xadrez, você não tem mais nada a nos provar!



(*) Uma primeira versão deste texto apareceu em primeira mão no blog parceiro Reino de Caíssa

segunda-feira, 25 de setembro de 2017

O mestre grisalho ainda sonha




Sentado, perante o tabuleiro quadriculado, o mestre grisalho segura entre as mãos a criativa cabeça, como se o peso das ideias fosse demais para os músculos do pescoço.

Ele joga uma partida de xadrez.

As peças no tabuleiro não passam de mnemônicos, a posição estática é como mera estação onde o trem da partida para rapidamente e logo volta a seu curso. Na mente do mestre, as peças estão em outra posição, na verdade dançam, voltam ao mesmo ponto e tornam a mover em outras direções; para cada lance feito, dezenas de partidas são imaginadas pelo mestre. Lance após lance, partida após partida.

Por vezes, mira o teto com o olhar perdido, as peças passam ligeiras em sua imaginação.

Há um peça na sétima fila, um peão do adversário. Uma peça curiosa esse peão, vale tão pouco no início do jogo, mas a cada passo que dá, sempre em frente, seu valor aumenta. Um peão nunca olha para trás: só lhe interessa o presente, mas mira o futuro.

Mais um passo e aquele peão passará a ser outra peça. Que peça o adversário colocará no lugar do peão? O mestre pensa nas possibilidades; são quatro opções, ele precisa pensar em todas. Para cada uma, são tantas partidas possíveis. É preciso avaliar cada uma delas. Após assegurar-se que não há risco, ele faz sua jogada, aciona o relógio, anota o lance na súmula e levanta para uma rápida caminhada pelo salão de jogos.

Há quase trinta anos, o mestre repete o ritual quase que diariamente. É um jogador da elite do planeta desde muito jovem; elite que se alterou quase que completamente ao longo dos anos, mas ele permanece em forma, sedento. Já viu passar tantos campeões do mundo, venceu a todos mais de uma vez, mas ele próprio jamais alcançou o título máximo de seu amado jogo. Chegar tão perto e falhar não o desencoraja. Ainda deseja melhorar a cada partida!

O adversário moveu seu peão uma casa, trocando-o por uma dama, e permaneceu sentado, profundamente concentrado. O mestre retorna e senta apressado. Anota ansioso a resposta que vê sobre o tabuleiro. A posição, aquela nova estação que agora aparecia no tabuleiro, tinha passado em sua mente momentos antes, numa das possibilidades que previra. O fim está próximo, ele pode intuir.

São seis movimentos à frente, numa sequência que deixa poucas escolhas ao adversário, por isso as centenas de possibilidades caem para algumas dezenas, mas em cada uma delas ele vê o rei adversário sem saída. Não há mais mistérios, esta tudo claro. Faz seu movimento com firmeza e aguarda a réplica. O adversário desiste, é inútil lutar mais.

Uma alegria juvenil toma seu peito. É assim a cada vitória, um elixir da juventude.

O adversário o cumprimenta reverente (apesar de ser também um virtuoso no jogo, é ainda um rapazote) e sai desgostoso. O mestre segue pelo lado oposto, seus olhos ainda passeiam distantes, verificando lances que não vieram à luz; um dia quem sabe, numa outra partida. Sempre haverá uma outra partida.

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quarta-feira, 13 de setembro de 2017

Um ofício nada sutil





Nas ruas de uma qualquer grande cidade, atrás de um ponto de ônibus, encostado num balcão de bar, sentado esperando um café, há sempre um narrador onisciente no exercício de seu ofício tão indispensável à literatura, pronto a presenciar as maravilhas e desgraças da natureza humana. Observa os passantes, os que ficam, os que não sabem a próxima coisa a fazer…

Alheio, ou aparentemente alheio, um homem rola no chão.

Para todos os efeitos, e sob qualquer critério, trata-se de homem adulto, como atestam os muitos danos da idade, aliados aos de nascença, espalhados pelo corpo.

Cabeça, pescoço e braços normais contrastam com um tronco de dimensões reduzidas, no qual estranhos e inesperados volumes no peito e costas oprimem a surrada camisa. As pernas são tristes arremedos atrofiados, sem vida, incapazes de esticar, de sustentar o corpo ereto.

Faz sons de criança, ou de gato. Gira sobre si mesmo, apoiado de lado ou sobre as costas. Seu faz de conta infantil não resiste à singela observação de que faz aquilo pelo sustento: ter a consciência da necessidade do dinheiro para sobreviver é atributo adulto, exclusivo, ainda quando visto numa criança. Além dessa falha fundamental, só se antevê sua verdadeira compreensão do mundo quando uma nota maior é jogada em sua caixa de esmoler. Mas apenas um olhar atento, como o do narrador onisciente, pode atinar para a nuance, o entendimento do valor do dinheiro, um conceito nada primitivo, completamente incompatível com o personagem encenado a sol e chuva, dia após dia, como duro ganha-pão.

O narrador pensava ter esgotado aquela observação, e seus olhos buscaram outra imagem. Aproximava-se um homem de andar vigoroso, de meia idade, bem vestido, camisa abotoada, sapatos de couro. Cabelos que tinha sido completamente louros, ostentavam agora uma mescla prateada que lhe conferiam um ar distinto. A pele gasta e avermelhada no rosto e pescoço indicava que, o que quer que aquele homem tivesse na vida, era fruto de árduo trabalho, de sol a sol. Segurava um cigarro com sua única mão. Quando estava bem próximo ao homem que girava e grunhia no solo, ele colocou o cigarro na boca, enfiou a mão num bolso da calça e retirou uma nota de dez reais, que depositou, sem se deter, na caixa humanitária. Depois, continuou seu caminho, a mão procurou a boca para voltar a segurar o cigarro. Seguiu sua marcha resoluto até sumir na indefinição da multidão como se seu gesto, tão rápido e discreto, não ocupasse mais espaço algum de sua consciência.

Durante o tempo em que o narrador onisciente ficou observando, talvez dez, quinze minutos, poucos passantes pareciam notar o esmoler. A caixinha mal recebera quatro ou cinco moedas, algumas de um real, algumas de vinte e cinco centavos ou menos. O homem no chão mal alterava seu deprimente número ao ouvir o tilintar das pratas, mas a ausência de som ao cair a nota graúda (pelo menos para ele era graúda) chamou sua atenção. Ele olhou a caixa e recolheu rápido a nota para dentro de sua camisa, local seguro.

O homem com um só braço, que aparentemente levara sua vida como se ter dois fosse uma extravagância desnecessária, talvez tenha visto na triste cena do esmoler que rastejava uma espécie de futuro paralelo que soube evitar, ou simplesmente compreendia melhor que os outros a dificuldade daquela situação extrema. A verdade é que tão pouca informação ele deu, em seu passo ligeiro, em sua generosidade rápida, que a razão de seu ato permanecerá um mistério até o dia do juízo.


O narrador verificou os bolsos, tirou uma nota sem olhar o valor, mas deteve-se. Não ficava bem um narrador onisciente tomar parte no enredo, alterar os fatos. Recuou. Sentiu-se como o homem no chão, estava ali, mas era como se não estivesse. Não fosse outro narrador onisciente que, mais atrás, testemunhava tudo, aqueles fugazes momentos jamais seriam escritos, permaneceriam ocultos, como os motivos do homem que iluminou a tarde com seus passos rápidos e um braço só.


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