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sábado, 26 de novembro de 2016

O Xadrez na Era Supervisonada







O xadrez mudou muito após o pleno desenvolvimento de computadores capazes de vencer os melhores jogadores do mundo. A partir dos anos 1980, as máquinas começaram timidamente a vencer grandes mestres, depois apareceu uma ou outra vitória isolada contra o campeão do mundo, até a definitiva derrota em 1997, quando Garry Kasparov inclinou seu rei na sexta partida do match contra Deep Blue.

Desde então, a questão não é mais se o homem pode bater a máquina, mas sim quão bem poderia jogar a máquina, e como ela ajudaria o homem a compreender melhor este jogo milenar que nos tem fascinado por tantos séculos. Foi o fim da ‘era não supervisionada” do xadrez.

Por muitos anos, nós humanos jogamos um xadrez misterioso, instigante. Não havia uma “resposta certa” sobre as mais variadas posições, especialmente alguns finais de partida. Aberturas precisavam ser analisadas exaustivamente em sessões de treinamento que duravam dias. Enganos eram frequentes, por várias vezes mestres prepararam em casa surpresas de abertura que foram simplesmente refutadas no tabuleiro, no calor da partida. Por isso, podemos chamar este tempo de era não supervisionada do xadrez.

Foi a época de Fischer, cuja formação como jogador foi inteiramente baseada em livros, revistas especializadas, pura prática e aconselhamento com outros grandes mestres (enquanto pôde encontrar jogadores no ocidente que ainda podiam lhe ensinar algo sobre o jogo). As comunicações ainda não estavam tão bem desenvolvidas, e as partidas dos adversários soviéticos e europeus chegavam com dificuldade, coletadas por amigos e colaboradores ao redor do mundo. Quando lhe ocorria uma ideia nova, ele não podia pensar “deixa eu saber aqui neste livro, ou com este grande mestre superior se esta jogada serve”. Não, ele mesmo respirava fundo, se colocava no outro lado do tabuleiro e ia atrás dos recursos possíveis para as peças contrárias.

Contra Fischer, e contra todo o resto do Mundo, havia a forte Escola Soviética de xadrez, detentora de todos os campeões mundias após 1948 (exceto Fischer). Era uma estrutura muito bem azeitada para formação serial talentos que, uma vez na elite, eram forçados a cooperar uns com os outros para o crescimento do xadrez soviético como um todo. Apesar de ainda não existir uma “resposta certa” para as questões do jogo, sempre era possível contar com a opinião de um ex-campeão do mundo, como Botvinnik ou Tal, senão lançar mão do enorme arsenal teórico disponível em língua russa, bem guardadas pelos melhores grandes mestres do mundo. Era o que mais se aproximava do que temos hoje, quando praticamente alcançamos a 'era supervisionada' do jogo.

A era supervisionada é muito diferente. Para começar, antes mesmo de ser desenvolvido o poder de cálculo de variantes e avaliação de posições no tabuleiro, o simples fato de os computadores terem possibilitado a criação de bases digitais gigantes de partidas já foi uma revolução. Isso já facilitou enormemente o acesso à teoria do jogo, construída ao longo de pelo menos dois séculos de partidas entre mestres preservadas. Mas não foi só isso.

Os algoritmos de xadrez ainda estão em plena adolescência, e estamos longe de ter a ‘solução’ do jogo, como já aconteceu ao primo distante jogo de Damas. Apesar disso, os computadores já estão muito próximos de fornecer a ‘resposta certa’ em cada posição possível. Há momentos em que eles eles calculam tão bem, produzem lances tão belos, que dão a impressão de que estão a pensar!

Ao acompanhar os comentários de grandes mestres que dão cobertura às partidas do match pelo Campeonato Mundial entre Magnus Carlsen e o desafiante Sergey Karjakin (ambos crias da época computacional do xadrez), é notório como o computador fornece os lances mais fortes, sugere ideias por vezes brilhantes que não são acessíveis à mente humana no espaço de tempo limitado de uma partida de torneio. Tampouco ocorrem ao comentarista que não tem pressão nem limitação de tempo para suas elucubrações. Aliás, os dois maiores trunfos do computador são justamente o tempo de resposta (segundos) e a profundidade de cálculo, que pode chegar a dezenas de jogadas à frente, enquanto a média alcançada por grandes mestres da elite é de “somente” cinco a dez jogadas.

Nesse momento, porém surge um incômodo. O comentarista  faz uma análise, diz sua ideia sobre uma determinada posição de partida (o que antes seria tomado como uma verdade), e o jogador médio que está acompanhando sente o ímpeto de “checar” com seu aplicativo de análises se o grande mestre está mesmo certo. É uma grande inversão de valores que pode trazer uma ilusória sensação de entendimento, já que tanto o computador quanto o grande mestre têm uma base sólida para lançar uma jogada, mesmo sem ser a melhor, mas o amador que segue as avaliações do computador sem questionar criticamente é como a casa construída sobre a areia. Há muitos perigos nessa crença cega.

O computador ainda não “compreende” tão bem o jogo, apesar dos avanços técnicos que permitem transformar em objetivos parâmetros numéricos os conceitos humanos para avaliar o jogo: quantidade, qualidade e mobilidade de peças, segurança do rei, controle de espaço, estrutura de peões etc. Um exemplo foi visto na quarta partida do match Carlsen x Karjakin, quando o russo (que se defendia em posição inferior) organizou sua peças num tipo de fortaleza e impossibilitou qualquer avanço do exército inimigo, enquanto o computador continuava a fornecer avaliações favoráreis a Carlsen, numa posição claramente igualada.

Karjiakin x Carlsen, NY 2016 WCC m4. Posição após 94. Rf2 (empate).
Isso nos ajuda a recolocar o boi na frente do carro, lembrar que são os homens e suas ideias maravilhosas de xadrez e de computação que tornaram possível a evolução que vemos hoje. Não esqueçamos que por muitos anos os esforços foram para fazer o computador jogar como um humano, e não convém agora querer que as pessoas joguem como um computador. Se um dia as pessoas não forem mais capazes de julgar o que diz um cálculo frio da máquina, quem estará trabalhando para quem?

Uma vez, o ex-campeâo mundial Mikhail Tal estava para jogar uma exibição de partidas simultâneas contra vários jovens talentos soviéticos e confidenciou a um colega temer as agudas preparações de abertura dos jovens, já que ele próprio não estava mais a par das últimas novidades, era final da década de 1970. O colega tranquilizou o campeão: “não se preocupe, quando acabar a teoria que memorizaram, então serão apenas eles mesmos jogando com as próprias ideias”. Tal venceu a maior parte das partidas. Será que a legião de jogadores que busca somente assimilar as agudas descobertas computacionais não estaria somente repetindo o que fizeram os jovens que enfrentaram Tal? O que acontecerá quando tiverem que jogar com suas próprias ideias? Haverá alguma?

A era supervisionada pode matar o xadrez? Ela está ainda no começo, mas seus efeitos já são notórios e crescentes. O risco é que no lugar da evolução do conhecimento enxadrístico, ela traga uma visão dogmática e superficial (que era um temor de Fischer, quando percebeu o peso das preparações de abertura em sua época). Podemos nos precaver, há uma coisa que está em nosso poder: desligar um pouco a máquina e pensar com nossos próprios meios. Afinal, o melhor computador já criado está dentro do crânio de cada um de nós.


sábado, 19 de novembro de 2016

Rubinstein, um lance, duas vitórias




A série sobre posições famosas demanda muitas pesquisas em livros, revistas antigas, fóruns de discussão, que trazem muitas descobertas interessantes, além das diversas sugestões de colegas enxadristas. Tais curiosidades, que talvez não estejam exatamente dentro da proposta da série, com frequência dão origem a uma postagem só para elas.

Num antigo livro com 50 partidas seletas, duas me impressionaram em especial. Em ambas, jogava de brancas o grande mestre Akiba Rubinstein e seus adversários eram (ou seriam) campeões mundiais: Lasker e Capablanca, respectivamente. Rubinstein ganhou dos dois usando uma mesma jogada, embora as posições sejam distintas! Seria um método secreto para vencer campeões do mundo?


Rubinstein nasceu na Polônia (então parte do Império Russo) e foi contemporâneo de Lasker, Capablanca, Alekhine, Tarrasch e Marshall, para falar apenas dos famosos cinco grandes mestres originais. A forte concorrência no período em que esteve no auge de sua força enxadrística pode ajudar a entender porque Rubinstein jamais foi campeão mundial. Outros fatores foram sua condição financeira desfavorecida e a eclosão da I Guerra Mundial, quando Rubinstein estava no ápice de sua forma.

Um match com Lasker estava pré-firmado para 1914, quando começou a guerra, e, depois dela, a penível condição econômica europeia impediu que Rubinstein conseguisse levantar os valores pedidos por Lasker como bolsa mínima para a disputa do título (o mesmo aconteceria depois, quando o campeão já era Capablanca).

Segundo os ratings históricos, Rubinstein esteve pelo menos o entre os quatro melhores do mundo no período entre 1905 e 1915 e foi provavelmente o mais forte enxadrista do mundo entre 1912 e 1914. Justamente neste período áureo foram jogadas as partidas contra Lasker e Capablanca, nas quais Rubinstein usa o mesmo lance para obter a vantagem.

Nas posições acima, as partidas se encontram em seu momento crítico. Contra Lasker, era primeiro confroto entre eles, e Rubinstein precisa encontrar uma forma de retomar a torre sem cair num final desfavorável. Contra Capablanca, também o primeiro confronto entre os dois, o grande mestre polonês preparou uma linha aguda de abertura e precisava achar o único lance que não só evitaria ficar mal de imediato, mas deixa as brancas com posição superior!

Na primeira posição, Rubinstein jogou 18. Dc1!, exatamente o mesmo lance (com outras ideias) que fez na segunda, 17. Dc1!!, obtendo em ambas as partidas vantagens de longo prazo que conseguiu converter em vitória algumas jogadas depois.

O xadrez está cheio de coincidências, mas, como vimos, nem todas as coincidências na vida de Rubinstein foram tão felizes como o 'Dc1'. O mestre sempre teve uma saude mental frágil e passou boa parte de seus últimos anos em instituições psiquiátricas, especialmente após a morte da esposa em 1954.

Esses traços da personalidade de Rubinstein chamaram a atenção do escritor russo Vladimir Nabokov, que se inspirou nele (como em outros jogadores do início do século XX) para moldar seu personagem principal no livro A Defesa Luzhin, que depois deu origem a um excelente filme homônimo.

Rubinstein pode não ter passado para a história como um campeão mundial, mas suas combinações terão sempre um lugar cativo nos tabuleiros e no imaginário de gerações e gerações de enxadristas. Na próxima vez que puder fazer o lance 'Dc1', lembrarei do mestre e pensarei com cuidado, pode ser uma arma poderosa, principalmente se meu adversário for um Campeão do Mundo!

terça-feira, 15 de novembro de 2016

No tempo da Lettera 22





Este texto foi escrito numa máquina de escrever portátil, uma Olivetti Leterra 22. Foi presente de um amigo que, ao saber da minha vontade de ser escritor, apressou-se em dar melhor uso à relíquia que mantinha em casa sem serventia.

O simbolismo do presente vinha ao encontro de um comentário que fiz sobre o Finding Forrester. O filme conta a história de um escritor recluso que resolve aconselhar um jovem aspirante a escritor. Um dos artifícios é o uso das antiquadas máquinas mecânicas, muito úteis para dar ritmo à escrita, de forma que as palavras são transferidas da mente ao papel por mera necessidade rítmica.

Apesar de não ser comparável à complexidade de um computador, é impressionante ver em funcionamento os diversos mecanismos da Lettera. É uma máquina velha, portanto já tem seus vícios, como o acento agudo que não volta após ser solicitado e demanda uma intervenção manual (mais manual que de costume).A complexidade destas máquinas é visível a todos, ainda mais na minha que pede a retirada da cobertura para ter acesso às hastes. Já a complexa "mecânica" dos computadores fica escondida, podemos apenas imaginar.

O ritmo realmente ajuda, não se quer parar de ouvir os golpes das hastes no papel, dão a sensação de progresso, de evolução. O suor brota da testa, sinal que o esforço não é só mental; isso pode ser mais um atrativo para as letras, nesta época em que o jargão “menos é mais” só é aceito quando o assunto é peso corporal.

Conforme a tinta vai clareando, novamente a mão larga as teclas, desta vez para mudar a posição da fita bicolor. Outra preocupação que jamais ocorre ao escritor moderno, que no máximo pensará depois se deve imprimir o texto e se há tinta na impressora.

A tarefa de encher uma página A4 também fica mais árdua, pois não se alteram a fonte nem o tamanho dela, nem convém alterar o espaçamento padrão entre as linhas dado pela charmosa alavanca do lado esquerdo, sempre solicitada após o “trimmm”.

Nos tempos atuais, porém, é preciso achar um meio de portar o texto finalizado desta folha de papel única e inédita para um arquivo digital. Enquanto bato as teclas, penso em duas formas, uma rápida e preguiçosa (o scanner) e outra lenta, porém edificante (redigitar em um editor de texto); esta última já será uma ótima oportunidade de revisar o escrito, possivelmente após uma pausa para uma xícara de café.

Fico feliz quando encontro ocasião de usar minha Lettera, é uma forma voltar ao passado, de reconhecer o valor do que foi feito por aqueles que vieram antes de nós, cheios de engenhosidade e carinho pelo ofício. Só assim para descobrir que muitas das obras que nos foram legadas foram fruto não somente de talento e inspiração, também custaram muito suor (acabo de descobrir que minha máquina de escrever não tem ponto de exclamação).


Compartilhe: http://bit.ly/MinhaLettera22

domingo, 13 de novembro de 2016

Zürich 1953: um torneio, alguns livros, uma lenda




Capas das edições mais recentes em inglês (Amazon)
Existe no xadrez uma tradição que, apesar de sofrer algumas mudanças de formato ao longo da história, permanece fascinando jogadores de todos os níveis e aficionados: o Torneio de Candidatos.

Esta competição tem o objetivo único de escolher dentre os melhores enxadristas do Mundo aquele que terá a honra de desafiar o Campeão Mundial pelo título máximo do jogo. Somente à elite que emerge dentre os vencedores de campeonatos nacionais e continentais é permitido fazer parte do certame: eles são chamados de Candidatos. Pouquíssimos jogadores na história receberam esta honraria, dentre eles o Grande Mestre brasileiro Henrique Mecking (por 2 vezes).

Em 1953, foi realizado nos arredores da cidade suíça de Zurique aquele que é celebrado como o mais forte Torneio de Candidatos da história. Tomaram parte 15 grandes mestres, todos os mais fortes da época, um deles ex-campeão mundial (Max Euwe, Holanda), além de outros dois que viriam a ser campeões mundiais poucos anos depois (o vencedor do torneio, Vassily Smyslov e Tigran Petrossian, ambos soviéticos). Além da fantástica seleção de jogadores, o formato impressionava: todos jogaram duas vezes contra todos os oponentes, de forma que todos jogaram o mesmo número de partidas com peças brancas e com peças pretas.

Boa parte da mística deste torneio se deve aos livros escritos sobre ele por alguns dos participantes*. O mais famoso deles é o livro de David Bronstein (soviético, vice-campeão do mundo em 1951), traduzido para vários idiomas. Foi o primeiro livro de Bronstein, e ele comentou todas as partidas do torneio, 210 no total, com enfoque em posições típicas, principais planos de jogo e conceitos estratégicos. Ele pretendeu dar ao livro um formato quase literário e faz relativamente pouco uso de variantes longas nos comentários (para horror de alguns críticos). Esta abordagem só pode ser usada por um gênio como Bronstein, que compensa o menor rigor analítico com insights didáticos que deram celebridade ao livro.

Outro dos livros sobre o torneio permanece menos conhecido, apesar de ser considerado por alguns como ainda melhor que o de Bronstein, é o livro escrito por Miguel Najdorf. O genial grande mestre argentino (muito conhecido pela variante da Defesa Siciliana que leva seu nome) escreveu somente este livro em sua carreira. Najdorf se entregou à mesma árdua tarefa de comentar as 210 partidas, com enfoque mais analítico que Bronstein, sem deixar de falar de ideias estratégicas, além de aspectos psicológicos e práticos (como a administração do tempo de reflexão) que influem no desempenho num torneio longo como aquele, que teve 30 rodadas e durou quase 2 meses.


Um aspecto das rodadas inciais em 1953 (livro Najdorf)
Um dos motivos para a menor fama do excelente livro de Najdorf era o fato de ele estar disponível somente em espanhol. Recentemente, porém, foi lançada uma edição em inglês, e a popularidade da obra deve alcançar seu devido lugar.

Sobre esse lançamento, foi publicada uma revisão bastante desfavorável ao livro de Bronstein, o que me causou muita surpresa. O autor é o mestre internacional John Watson. Em sua resenha, ele dá muita ênfase à escassez de análises de variantes no livro de Bronstein (algo que foi feito de propósito pelo soviético, com explicado acima), e o considera omisso em algumas partidas nas quais Najdorf oferece maior quantidade de notas e informações.

Uma análise superficial pode ser tendenciosa, e é preciso ao menos dar um voto de confiança a um livro que tem sido um clássico por mais de 50 anos. Para uma justa e precisa comparação entre as duas obras, seria necessário ler os comentários das 210 partidas em ambos os livros, idealmente checar com um forte aplicativo de análise as variantes comentadas (e as omitidas). Desta forma, além de aprender muito da técnica e da história do xadrez, quem fizesse isso poderia, de forma muito bem embasada, tirar suas próprias conclusões sobre a qualidade dos livros.

Uma forma que encontrei de encurtar este esforço e lançar alguma luz sobre a questão, foi comparar as análises e comentários dos dois grandes mestres numa partida que jogaram um contra o outro no torneio. Assim, seria evitado qualquer viés dos autores (Bronstein afirma em seu livro que é muito mais difícil comentar as próprias partidas).

[Event "Torneio de Candidatos"] [White "Bronstein, David"] [Black "Najdorf, Miguel"] [Site "Zurich"] [Date "1953.08.31"] [Result "1/2-1/2"] [WhiteElo "2689"] [BlackElo "2684"] 1. d4 Nf6 2. c4 g6 3. Nc3 Bg7 4. e4 d6 5. Bg5 {[Najdorf] Aqui Bronstein me surpreendeu um pouco. Se costumava jogar 5. f3 ou 5. Cf3. Está claro que a agressiva jogada de bispo não pode ser castigada com 5. … h6 pelo debilitamento resultante na ala do rei.} c5 {[Najdorf] Prematuro. Era melhor continuar com a linha clássica 5. … 0-0, reservando a opção de atacar o centro com 'e5' ou mesmo 'c5' e esperar que as brancas denunciem suas intenções.} 6. d5 Na6 {[Najdorf] Melhor seria 6. … e6. Se 7. d×e6 B×e6 8. Cb5 0-0 9. D×d6 (ou C×d6) Cc6 e as pretas tem jogo ativo pelo peão sacrificado. [Bronstein] Muito já aconteceu nos primeiros seis lances. Aproveitando-se do desenvolvimento do bispo da dama branco para 'g5', em vez da casa usual 'e3', onde ele participa da luta por 'd4', as pretas rapidamente contra-atacam o centro com … c5. Como 6. d5 impediu o desenvolvimento do cavalo negro por 'c6', Najdorf agora pretende trazê-lo para 'c7', assim ele pode preparar … b5 com … a6. Isso custa um monte de tempo, entretanto, o resultado obtido é relativamente pequeno, comparado com o esforço desprendido. O cavalo ocupa uma posição passiva em c7, onde ele permanece sem uso por algum tempo. No final, ele quase faz as pretas perderem a partida.} (6... e6 7. dxe6 Bxe6 8. Nb5 O-O 9. Qxd6 (9. Nxd6) 9... Nc6) 7. Bd3 Nc7 { [Najdorf] Com esta manobra, trato de buscar a oportunidade de criar uma ruptura na ala da dama com 'b5'.} 8. Nge2 a6 9. a4 Rb8 10. O-O O-O 11. Qc2 Bd7 12. h3 {[Najdorf] Se neste momento 12. a5, então como na partida 12. … b5 13. a×b6 T×b6 … com pressão.} (12. a5 b5 13. axb6 Rxb6) 12... b5 { [Najdorf] Materializando a ideia da sétima jogada.} 13. f4 {[Najdorf] Começa o eterno tema desta abertura: ataque na ala do rei versus contra-ataque na ala da dama. Toda vez que as brancas conseguirem avançar seu peão do rei para 'e5' elas terão vantagem de espaço e melhores perspectivas. Por isso joguei: [Bronstein] A posição das peças pretas dá aos peões 'e' e 'f' uma irresistível tentação de avançar. As brancas estão conquistando mais e mais território; o peão agora em 'b5' compensa a duras penas a posição tolhida das pretas: por exemplo, compare as torres de 'f8' e 'f1'.} Nfe8 14. axb5 axb5 15. Ra7 bxc4 16. Bxc4 Ra8 $1 {[Najdorf] 16. Ta8! [Bronstein] 17. Tfa1 não pode ser permitido; mas agora as brancas conseguem trocar a única peça ativa das pretas.} 17. Rxa8 {[Najdorf] Bronstein não joga o natural 17. Tfa1 por causa da bela variante 17. … T×a7 18. T×a7 Db8 19. T×c7 D×c7! 20. B×e7 Ba4 ganhando.} (17. Rfa1 Rxa7 18. Rxa7 Qb8 19. Rxc7 Qxc7 20. Bxe7 Ba4 ) 17... Nxa8 18. Qb3 {[Najdorf] Impedindo o retorno do cavalo por 'b6' devido à ameaça B×e7. Então...} f6 {[Bronstein] Como a dama não pode permanecer para sempre presa à defesa do peão de 'e7', as pretas decidem dar um passo difícil: fechar o caminho de seu próprio bispo.} 19. Bh4 Qb6 {[Najdorf] Ofereço a troca de damas para retirar de Bronstein armas agressivas, já que ele dispõe de vantagem de espaço e posição superior.} 20. Qa3 Nec7 21. b3 Nb5 $2 {[Najdorf] 21. ... Cb5?. O correto seria 21. … Te8, porque era necessário prevenir a ruptura em 'e5', e então seria possível seguir f×e5.} (21... Re8) 22. Nxb5 Bxb5 23. f5 $1 {[Najdorf] 23. f5! [Bronstein] Pequenas vantagens, acumuladas pacientemente, deram corpo a um considerável ataque; com este lance as brancas iniciam sua busca por um fortalecimento decisivo de sua posição. A ameaça é 24. Cf4 g5 25. Ce6 g×h4 26. C×f8; adicionalmente, o último lance branco ajudou a fixar os peões pretos 'e' e 'f' em casas escuras. ***O restante do comentário abaixo só aparece na versão em inglês do livro de Bronstein*** Ainda assim, as brancas deveriam ter dedicado algum tempo para transferir seu bispo de casas escuras para uma outra diagonal. Ele já cumpriu o objetivo de induzir … f6 e poderia ter causado às pretas consideráveis dificuldades após 23. Be1. Também seria possível 23. Ta1, mas então as negras poderiam ter o lance … f5 em algum momento; não de imediato, pois 23. … f5 24. e5 d×e5 25. d6+ Rh8 26. d×e7 … etc.} (23. Be1) (23. Ra1 f5 24. e5 dxe5 25. d6+ Kh8 26. dxe7) 23... Bh6 {[Najdorf] Este lance é necessário para evitar Dc1 e as consequências do translado da dama à ala do rei.} 24. fxg6 hxg6 25. e5 $3 {[Najdorf] 25. e5!! Meu rival joga com toda alma e, mesmo pressionado pelo relógio, encontra uma magnífica continuação de ataque rompendo o bloqueio de peões pretos e liberando a casa 'e4' para seu cavalo.} Bxc4 26. bxc4 dxe5 27. Qd3 {[Bronstein] Por que as brancas sacrificaram este peão? Não poderiam as pretas iniciar um contra-ataque agora? Ainda não e, enquanto isso, as brancas precisam somente de dois ou três lances – Cc3 e Tb1, por exemplo – para dominar todos os pontos chave da ala da dama, e então tomar o peão de 'c5' ou 'e7'. O triste posicionamento do cavalo preto em 'a8' ajuda bastante às brancas na execução de seu plano.} (27. Bf2 Rc8 28. Qd3 Kg7 29. h4 {[Bronstein]}) 27... Kh7 {[Najdorf] Foi muito difícil para mim decidir se esta jogada era melhor que Rg7. Minha decisão se baseou no desejo de impedir (após Cc3-e4-Bf2-C×c5) que o cavalo chegasse a 'e6' com xeque.} 28. Nc3 Qb3 $1 {[Najdord] 28. ... Db3! A melhor resposta. Mesmo com um pão a mais minha posição era muito crítica. Se jogasse 28 … Cc7, Bronstein ameaçava 29. Tb1 Da3 30. Ce4 com posição ganhadora. [Bronstein] Os últimos dois lances brancos não foram ruins, mas poderiam ter sido um pouco melhores, por exemplo 27. Bf2 Tc8 28. Dd3 Rg7 29. h4 … Agora, Najdorf encontra um modo de complicar taticamente a partida e, mais importante, trocar as damas, o que facilita a defesa.} (28... Nc7 29. Rb1 Qa6 30. Ne4 {[Najdorf]}) 29. Rb1 e4 30. Rxb3 exd3 31. Rb7 $1 {[Najdorf] 31. Tb7!} Kg8 {[Najdorf] Única, outra vez.} 32. Kf2 { [Najdorf] Evidentemente, não era vantajoso tomar o peão do rei libertando o cavalo de 'a8'. [Bronstein] Obviamente, as brancas não tomam o peão para não permitir que o cavalo preto saia do isolamento em seu canto distante.} Bf4 $1 {[Najdorf] 32. ... Bf4!} 33. Kf3 {[Najdorf] Se 33. Bg3 B×g3+ 34. R×g3 Tc8! 35. T×e7 Cb6 36. Te4 f5 37. Tf4 d2 38. Rf2 Te8, melhor para as pretas.} ( 33. Bg3 Bxg3+ 34. Kxg3 Rc8 35. Rxe7 Nb6 36. Re4 f5 37. Rf4 d2 38. Kf2 Re8 { [Najdorf]}) 33... Rb8 34. Rxb8+ {[Najdorf] Tomar o peão do rei poderia levar ao empate da seguinte maneira: 34. T×e7 g5 35. Bf2 Tb3 36. Ce4 d2+ 37. Re2 Td3 38. Rd1 Cb6 39. C×f6+ Rf8 40. B×c5 Ca4 41. Ch7+ Rg8 42. Cf6+ … etc. Agora a tensão se afrouxa consideravelmente.} (34. Rxe7 g5 (34... Rb3 { [Bronstein]} 35. Bxf6) (34... Bd6 35. Re6 Be5 36. Bxf6 Bxc3 37. Bxc3 Rb3 38. Ba5 $1 {[Bronstein]}) 35. Bf2 Rb3 36. Ne4 d2+ 37. Ke2 Rd3 38. Kd1 Nb6 39. Nxf6+ Kf8 40. Bxc5 Na4 41. Nh7+ Kg8 42. Nf6+ {[Najdorf]}) 34... Bxb8 {[Bronstein] Praticamente toda a vantagem branca desapareceu após a troca de torres. Melhor seria 34. T×e7 Tb3 35. B×f6 ou 34. … Bd6 35.Te6 Be5 36. B×f6 B×c3 37. B×c3 Tb3 38.Ba5! As brancas superestimaram a força do peão em 'd3' quando rejeitaram a continuação acima, entretanto seu próprio peão de 'd5' teria sido muito mais perigoso. A melhor variante de todas teria sido 33. Bg3 ao invés de 33. Rf3, oferecendo a troca de bispos. As brancas não previram a resposta preta 33. … Tb8.} 35. Na4 Bd6 36. Bf2 Kf7 37. Ke3 Nc7 38. Kxd3 Na6 39. Ke4 f5+ 40. Kf3 e6 41. Nb6 {[Najdorf] Empate, já que após 41. … e5, não havia maneira de forçar a partida.}
Revisar a partida sob a ótica desses dois lendários mestres é muito enriquecedor. Percebe-se o respeito mútuo, o profundo conhecimento estratégico, a tática aguçada, a honradez dos mestres. Por exemplo, Bronstein em momento algum se refere ao fato de ter pouco tempo restante no relógio para explicar algum erro seu, enquanto Najdorf cita que ele estava com pouco tempo, mas mesmo assim encontrou a melhor continuação no lance 25 (ao qual deu duas exclamações '!!' - aliás, Najdorf é muito mais afeito ao uso de '?' e '!' em suas notas).

Existem diferenças, claro. Por exemplo nos lances 12 e 17, Bronstein considera desnecessário mostrar algumas variantes (provavelmente porque considerou fáceis de visualizar), em outros as análises divergem, como no lance 33. A verdade, porém, é que a partida fica muito mais instrutiva quando são unidas as notas, que se complementam.

Há sempre pelo menos duas formas de fazer qualquer coisa na vida, assim como no xadrez. Há os que começam com o peão do rei e outros com o peão da dama, há os destros e os canhotos, há pessoas analíticas e as intuitivas. Assim, não vejo como desmerecer um livro frente ao outro. Bronstein e Najdorf são fieis aos estilos segundo os quais viveram suas vidas e moveram suas peças. Esta dualidade não diminuiu em nada a qualidade de suas obras, ambos apenas enriqueceram o mundo com seus lances, ideais e palavras.

Compartilhe: http://bit.ly/Bronstein


*Há ainda os livros escritos por Max Euwe e Gideon Stahlberg que estão disponíveis apenas em antigas edições nas línguas maternas dos autores.

domingo, 6 de novembro de 2016

Um lance no Maracanã




Catedral do futebol brasileiro (Google)
Eu não sou um fã de futebol, sequer tenho um time do coração. Até mesmo a Seleção, que costuma atrair-me o olhar a cada quatro anos, tem caído em esquecimento.

Inúmeras vezes eu sentei em frente ao aparelho de TV para tentar seguir uma partida do início ao fim, mas, em pouco tempo, o verde do fundo da imagem me faz cair num sono fortuito e reparador.

Há, porém, um fato que me deixa encucado: eu adoro ler crônicas sobre futebol.

Não sei se é pela qualidade dos cronistas, gente como Nelson Rodrigues, Carlos Drummond de Andrade e Luís Fernando Veríssimo, para falar só dos muito famosos escritores fãs do futebol. Tem também alguns que foram artistas no campo e agora escrevem sobre o jogo, o mais notório deles é Tostão.

A crônica e o futebol são artes que o brasileiro tomou para si como se fossem bens de nascença, de forma que nosso país se tornou referência nas duas. Assim, crônicas futebolísticas são como princesas reais oriundas de duas importantes majestades da expressividade nacional.

Contudo, não creio que seja possível escrever sobre o jogo de forma a torná-lo interessante e acessível, até para aqueles como eu, se não estiver ali presente uma boa dose de paixão. A paixão pelo jogo é o filtro que transforma chutes, dribles, escanteios e gols em esperança, alegria, frustração, raiva e esperança novamente. Parece até que futebol, quando transformado em palavras, assume o que tem de mais humano e mais belo e passa a ser de interesse universal.

Uma vez somente, eu senti um pouco desta paixão pelo futebol. Foi num domingo, dia de Missa e futebol. Aceitei o convite para ver uma partida Flamengo x Fluminense realizada num Maracanã lotado (seria minha primeira vez naquele mítico estádio, o que pode ter contribuído para o estado geral das coisas). Como um ateu que adentra uma catedral, sentei e fiquei observando a partida, aparentemente muito mais sem graça que na TV, já que não tem os comentários, nem replay. Foi, então, que aconteceram os gols, e tudo mudou.

A numerosa torcida do Flamengo, com a vantagem de sua equipe, começou um canto e um movimento que se tornou vibratório, ultrapassou o da torcida contrária e foi chegando a todos os presentes, inclusive a mim. Alguns ali estavam tendo pela primeira vez em dias o sentimento de unidade com outros seres humanos, a primeira felicidade do mês, recebiam de volta o primeiro olhar humano de compreensão do colega de brasão. Foi ai que percebi o valor do espetáculo.

Eu não lembro do placar, nem dos artilheiros, lembro de ter sido, por um momento, levado a sentir o mesmo que aqueles torcedores sentiam, e compreendi. A vitória do time do coração era só um gatilho para uma felicidade intensa, passageira como qualquer felicidade, mas que reabastecia o ânimo na espera pela próxima partida; até lá, a vida continuaria a ser um mero intervalo.