sábado, 19 de janeiro de 2019

Encontro com o decano do xadrez do Ceará




Coronel Carlos Alberto Ferreira, 97 anos de idade, decano do xadrez cearense!
Não sei se acontece com todos, mas quando eu leio os livros de xadrez dos grandes mestres do passado, parece que eles estão ao meu lado, contando suas histórias vividas numa época áurea do xadrez. Lamento que, de fato, eu não os tenha conhecido; nomes como Bronstein, Najdorf, Kotov, Averbakh… para falar somente daqueles cujos livros eu gosto mais.

Há poucos ainda no mundo que foram contemporâneos desses homens, que leram suas palavras quando a tinta ainda estava fresca no papel, que conheceram alguns deles pessoalmente. Há muito poucos no mundo, mas quantas dessas testemunhas oculares estão próximas de nós?

Será que quietos em sua casa, lendo e jogando xadrez, não existem veneráveis senhores ou senhoras que compartilharam este mundo com grandes jogadores, não necessariamente no mesmo espaço físico, mas ainda assim próximos dos eventos que hoje são somente histórias em livros.

Tive a honra de visitar pela segunda vez uma pessoa assim!

O coronel Carlos Ferreira (apenas Cel Ferreira nos tempos da ativa) é, com certeza, o decano do xadrez cearense (talvez até do Brasil), ainda que muitos dos enxadristas atuais do estado não o conheçam! Ele é uma testemunha das glórias do xadrez desse estado de enorme tradição no jogo (algo que hoje não se fala e divulga da maneira que deveria ser divulgado). Aos 97 anos, com uma lucidez e agilidade mental que demonstram o bem que faz o xadrez! Ele continua professando aos quatro cantos seu amor ao jogo, que pratica desde muito tenra idade!

Nosso decano demonstra grande combatividade no tabuleiro! Cheguei para uma conversa, mas fui desafiado para duas partidas!

Posição final de uma das partidas (Ferreira x Frota, 1/2-1/2)
O Cel Ferreira foi aluno da Escola Preparatória de Fortaleza (que funcionou entre 1942 e 1961 no prédio do atual CMF em Fortaleza-CE), oficial de carreira do Exército Brasileiro, vice-presidente da CBX, organizador do V Zonal Sulamericano de Xadrez (realizado em Fortaleza no ano de 1963), diretor do DETRAN-CE na década de 1960, além de ter atuado na indústria de pesca do Ceará nos anos 1970 e no SENAI nos anos 1980. No xadrez, continua forte jogador até hoje (como comprovei).


Além das partidas, ouvi histórias sobre o mestre Ronald Câmara (cearense, mestre nacional e bi-campeão brasileiro de xadrez) e sobre o também coronel Francisco Alves dos Santos, ou simplesmente Chico Alves (cearense, vice-campeão brasileiro de 1961 e membro da equipe brasileira na Olimpíada de Xadrez de 1972, realizada em Skopje, Alemanha). Ouvi sobre seu contato com nomes importantes como os grandes mestres Eliskases e Mecking.

Na memória do Cel Ferreira, está firme um tempo em que os segredos do xadrez estavam quase inacessíveis, sobretudo por trás da Cortina de Ferro. Contou que certa vez afastou-se do Ceará para residir em Recife, em virtude de sua posição como oficial das Forças Armadas, deixando alguns colegas de mesma força enxadrística que ele. Só que nesse intervalo de alguns anos, chegaram à Fortaleza alguns exemplares da famosa revista soviética de xadrez 64 que foram traduzidos e minuciosamente estudados pelos colegas do coronel. Quando ele voltou, uma surpresa: seus antigos rivais de mesma força eram agora quase invencíveis!

Perguntei: “Coronel, quem é o número 1 de todos os tempos?”. Ele falou sem titubear: “Fischer”! “E quanto a Kasparov?”. “Este fica em segundo”. Mas não pensem que ele ficou preso ao passado, regularmente acompanha partidas dos garotos de hoje, Carlsen e companhia.

O tempo foi curto para ouvir as histórias e jogar as partidas que ambos desejávamos, mas outras visitas virão!

Aproveitando o ensejo, ofertei ao Cel Ferreira um exemplar (único impresso) do meu ebook Xadrez Fascinante, não para concorrer com os clássicos de sua seleta biblioteca de xadrez, mas como singela contribuição de um conterrâneo que também ama esse jogo.

Já deixei a promessa de retornar, jogar mais um pouco, ouvir outras histórias e, quem sabe, poder ofertar o segundo volume do ‘Xadrez Fascinante’, ainda em elaboração.

Compartilhe: bit.ly/DecanoCeara

quarta-feira, 16 de janeiro de 2019

Ensaio sobre a cegueira... enxadrística




O xadrez é um jogo de informação perfeita, o que significa que tudo o que os jogadores precisam para tomar suas decisões está diante de seus olhos (ao contrário de outros jogos, como o Poker). Isso não significa que seja um jogo no qual as pessoas tomem sempre as melhores decisões, pois, a rigor, ninguém é capaz de “enxergar” todos os bilhões de possibilidades de posições sobre o tabuleiro. Na verdade, todo o perdedor de qualquer partida falhou em ver tudo o que precisava, senão conseguiria pelo menos empatar.

Ultimamente, com a chegada do AlphaZero, a definição de cegueira enxadrística precisa ser atualizada, pois a máquina "vê" tanta coisa que até os melhores humanos podem ser considerados cegos.

Por exemplo, no recente match Ca x Ca (Carlsen x Caruana), a sexta partida acabou num final muito interessante no qual o desafiante (com peças pretas) tinha bispo, cavalo e peão contra bispo e peão do campeão, mas que acabou em empate. Num dado momento, o computador, profundo e frio, viu xeque-mate para as pretas em 30 jogadas! Nesse nível, todos estavam cegos, até os dois jogadores mesmo depois de ver a jogada da máquina não percebiam o desfecho fatal.

Mas a cegueira que mais nos impressiona é a cegueira ao óbvio, coisa que até o mais neófito dos enxadristas seria capaz de ver.

Em 1953, jogava-se o famoso Torneio de Candidatos de Zürich, que deve sua fama aos excelentes livros escritos sobre ele e às polêmicas envolvendo a política soviética e a competição enxadrística. Na 19ª rodada do evento (que teve um total de 30!) enfrentavam-se o húngaro Szabo (que estava entre os últimos colocados) e o norte-americano Reshevsky (que tinha boas chances de vencer o certame).

Szabo tinha as peças brancas e jogou um xadrez bem dinâmico e, ao ponderar seu 21° lance, mirava a seguinte posição:


Szabo, L. × Reshevsky. S (Zürich, 1953), posição após 20.… B×f6

A maioria dos jogadores que costumam praticar e estudar xadrez perceberá que há acima uma situação de xeque-mate em 2 jogadas para as brancas, começando com 21.D×g6! Bg7 22.D×g7# ou 21.… Rh8 B×f6#. Szabo, que tinha muito tempo disponível em seu relógio para pensar, jogou rapidamente 21.B×f6?? arruinando a vitória imediata.

Vejamos o que os grandes cronistas (e participantes) do torneio falaram sobre este erro:

“Seguramente contagiado pelo angustiante apuro de tempo de seu adversário, o grande mestre húngaro retoma a peça, quando tinha mais tempo que suficiente para ver o simples mate em duas jogadas” (Najdorf)

“Um caso único em muitos anos de torneios: nenhum dos grandes mestres vê 21.D×g6! Bg7 22.D×g7#” (Bronstein)

A audiência, que seguia a partida em tabuleiro mural, reagiu com tamanha surpresa que seus ruídos chegaram aos ouvidos de Szabo que logo percebeu a oportunidade perdida. Mais adiante, voltou a errar numa posição ainda vantajosa, e acabou por propor empate mesmo em posição ainda ligeiramente melhor para ele. Segundo Najdorf, naquela altura para Szabo “era mais difícil solucionar os problemas de seus nervos que os problemas do tabuleiro”.

Afetado pelo erro, Szabo só voltou a vencer alguma partida naquele evento após 9 rodadas!

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quarta-feira, 26 de dezembro de 2018

Xadrez: uma beleza até de ponta cabeça!*




Num dia comum, como qualquer outro, vejo um problema de xadrez no Twitter, penso por alguns instantes e penso que resolvi. A beleza da combinação chega a arrancar-me um sorriso, e apressei-me para enviar para outros amigos do jogo pelas redes sociais.
Brancas jogam e dão mate em 3 jogadas.
Enviei assim, sem as coordenadas do tabuleiro e logo apareceram comentários com mais de uma solução: uma supondo que os peões pretos se movem para cima no tabuleiro apresentado; outra supondo que os peões pretos se movem para baixo no tabuleiro.

Seria possível o xadrez ser tão mágico assim? Não seria engano de alguns colegas?

A posição original, com as coordenadas corretas, deveria ser esta:



E a solução para o problema original é: 1.Rf3! g1=D (se, por exemplo, 1. … g1=C+ 2.Rf7#) 2.Cf2+ D×f2+ 3.R×f2#. As promoções do peão em g1 a bispo ou torre também levam a desfechos similares.

A posição que foi interpretada por outros é a seguinte (girando o tabuleiro 180º, sem mudar as coordenadas):



E o que surpreendeu a todos é que realmente, apesar da radical mudança na posição, o problema de mate em 3 é mantido! A solução é muito elegante: 1.Bc6! b×c6 (única) 2.Rc8 c5 3.Cc7#.

O fato não passou despercebido, e muitos interpretaram a coincidência como prova do manancial infinito de belezas do xadrez.

Seria possível criar outros problemas "irmãos" desses acima variando a colocação do bispo (entre b7 e e4 no primeiro caso; entre g2 e d5 no segundo caso), mas outras variações não seriam tão felizes. Por exemplo, mudando-se o rei para e1 no primeiro caso, o problema passa a mate em 4, mas no segundo caso, a mudança do rei para e8 ainda permite mate em 3 (vale a pena verificar).

Naquele dia foram muitos os devotos de Caíssa que dormiram encantados, alguns que estavam há meses sem olhar seus livros de problemas ousaram dar uma olhada, outros jogaram partidas para extravasar a adrenalina enxadrística. Eu fiquei pensando neste texto, tinha que escrever e publicar! Quem sabe não acontece de alguém ler, de se encantar também, e de o mundo ganhar mais um enxadrista?


*Uma versão deste texto apareceu inicialmente no blog parceiro Reino de Caíssa.

sábado, 1 de dezembro de 2018

Aprendendo com os campeões




A cada campeonato mundial, Isaías sente renovar-se um pouco a velha chama enxadrística que por tantos anos esteve presente em sua vida, aquecendo sonhos e planos, apesar de sua paixão pelo jogo nem sempre ser correspondida.

O mundial deste ano até lembrava nostalgicamente os embates lendários entre Kasparov e Karpov (K × K), não somente porque voltavam a se enfrentar os dois melhores enxadristas do planeta, mas também por causa das iniciais: Ca × Ca.

Isaías seguiu todas as partidas pela internet, em especial a 12ª, que poderia definir o confronto. O melhor era acompanhar as análises dos grandes mestres online, pois sempre aparecia alguma ideia nova, alguma dica que, embora ele quase não jogasse mais com tanta frequência, poderia ser útil algum dia.

Num desses vídeos, o grande mestre Yasser Seirawan comentou algo sobre uma armadilha de abertura na 12ª partida (uma Siciliana) na qual as pretas poderiam acabar num interessante xeque-mate "afogado" caso jogassem sem bastante cuidado.


Impressionante como tem coisas ocultas no tabuleiro, mesmo nas primeiras jogadas! Claro que o Campeão Mundial jamais cairia naquilo, mas Isaías pensou que algum jogador menos talentoso que Carlsen poderia muito bem se tornar uma vítima naquela situação. Só havia uma dificuldade: Isaías não jogava peão do rei e seria improvável enfrentar aquela variante da Defesa Siciliana.

Aquela 12ª partida acabou empatada, após uma estranha proposta de igualdade feita pelo campeão numa posição vantajosa. No desempate, em partidas rápidas, Magnus Carlsen se impôs e manteve seu título.

Embalado pelas partidas do mundial, assim como dois anos antes, Isaías sentiu novamente vontade de jogar. Correu para o clube, mas lembrava fortemente de não tomar as lições aprendidas durante o campeonato mundial muito ao pé da letra como fizera da última vez.

Nos clubes sempre tem alguém pronto para um par de partidas rápidas, e Isaías não teve dificuldades em encontrar adversários. Foi difícil desenferrujar, mas após algumas derrotas iniciais ele conseguiu alguns pontinhos.

Já perto do fechamento do clube, Isaías moveu seu peão da dama duas casas para iniciar aquela que seria última partida da noite. Seu adversário respondeu com uma Defesa Benoni Antiga, e uma posição parecida com aquela da 12ª do mundial apareceu:


Posição após 4. ... Ce7

Como já era tarde da noite, Isaías pensou "Por que não?" e seguiu jogando 5.Cb5 a6 6.Da4 Bd7. Com uma estranha satisfação, Isaías concluiu que, definitivamente, seu adversário não vira o vídeo do Seirawan… Jogou o xeque-mate "afogado" ensinado dias antes: 7.C×d6#.


Posição final, após 7.C×d6#
É sempre bom usar o que se aprende. Dá uma sensação de dar um passo a mais na vida, mesmo que esse passo seja bem pequeno, menor até que o passo de um peão no tabuleiro. Para Isaías, porém, aquele pequeno triunfo serviu para manter acesa a velha chama durante a longa espera que virá, de dois anos, até o próximo confronto pelo título mundial.

segunda-feira, 24 de setembro de 2018

Xadrez Fascinante





Há alguns anos (como passam rápido), pensei em fazer uma série de postagens para este blog a fim de apresentar aos leitores aquelas posições de maior importância para a história do xadrez. Como eram postagens curtas, e eu não tinha nada a acrescentar nas análises técnicas das partidas completas em relação às magistrais obras publicadas ao longo dos anos, decidi focar na posição chave de cada partida famosa e contribuir no sentido de unir informações soltas, quase nenhuma delas disponível em língua portuguesa, sobre o contexto da partida, quem eram os adversários, o que tornou aquela posição tão célebre etc. O objetivo era trazer um conjunto de informações mínimas, essenciais, que todo aquele que passa pela vida precisa saber sobre o xadrez.

Para o blog, apenas cerca de uma dúzia de textos foi produzida, a maioria bem curtos, limitados ao formato do canal, mas foram uma semente.

Quando pensei em retomar a série, minhas ambições já estavam mais aprofundadas, era necessário rever o que já tinha feito, ampliar, enriquecer, trocar algumas das posições escolhidas por outras mais relevantes (aprender xadrez é um processo) e completar o projeto: seriam 64 posições críticas de 64 partidas famosas. Mas como escolher?

Um dos critérios: não poderia ser uma posição de abertura, do tipo armadilha, tão comuns em livros para iniciantes. Outro critério, seriam candidatas naturais posições presentes em livros de referência como a fantástica coletânea Meus Grandes Predecessores de Garry Kasparov, Zurich International Chess Tournament de David Bronstein ou 500 Master Games de Tartakower & DuMont. Esses gigantes já haviam feito a triagem natural, mas apenas na intersecção de várias dessas magistrais fontes eu encontraria meus 64 tesouros. Mas a cada dia são criadas partidas que podem se tornar antológicas! Então, o trabalho não poderia se prender somente aos clássicos.

Algumas páginas de internet, como ChessHistory.com, Chessbase.com, Chess.com e ChessGames.com foram levadas em conta, em especial está última, que conta com uma área de comentários de usuários da página que é um verdadeiro manancial de referências!

Para dados sobre jogadores e outras personalidades citadas no livro, usei a Wikipédia como fonte principal (em geral a versão em inglês, que costuma ser mais completa) e outras fontes citadas oportunamente no texto.

Escolhidas as partidas, pesquisados os assuntos, amarradas as pontas soltas, verifiquei que o trabalho seria hercúleo! Então decidi dividir o livro em dois volumes.

Neste primeiro volume que ora entrego, cubro um período que vai desde a primeira partida do xadrez moderno, jogada em 1475, até o marcante Torneio de Candidatos de 1953. O segundo volume tratará dos anos seguintes, até a era atual, em que nomes como Kasparov e Carlsen estão ofuscados pela assombrosa perfeição técnica dos algoritmos computacionais!

Agradeço aos leitores do blog, aos amigos enxadristas e não enxadristas pelo interesse demonstrado pelo assunto ao longo dos anos. Agradeço especialmente à minha amiga Jacqueline Amorim, que corajosamente se voluntariou para revisar o texto. Finalmente, à minha família pelo apoio e paciência nos períodos de dedicação ao livro, sem os quais eu não teria o equilíbrio para realizar nenhuma tarefa de valor.

Que a leitura seja agradável e o objetivo alcançado. A repercussão desse primeiro volume vai me acompanhar e animar na conclusão do segundo, que espero lançar brevemente.


quinta-feira, 9 de agosto de 2018

Uma lenda lendária




 Cartuns Alpino

Conhecer-se... talvez seja a mais difícil das tarefas!

Conta-se que, certa vez, Yo Ping, um jovem sedento por sabedoria, procurou Mestre Kon, que há muito havia-se retirado para as altas colinas do Oeste, para ali manter-se em serena meditação e contemplação das ações da natureza.

O jovem Yo Ping viajou por três dias, refugiando-se à noite sob as árvores, concentrando-se para afugentar maus pensamentos e conciliar o sono reparador.

Mestre Kon surpreendeu-se quando, ao final do terceiro dia de viagem, Yo Ping chegou ao seu acampamento simples, fez uma cortês reverência e pediu para ficar com ele por um tempo, compartilhando de suas lições.

O mestre não respondeu, tampouco fez nada que pudesse ser interpretado como uma negação. Assim, Yo Ping permaneceu ao lado dele por mais três dias.

Neste tempo, os dois, embora jamais juntos, desempenhavam as mesmas atividades corriqueiras e observavam-se mutuamente, um pela veneração, outro por simples curiosidade, ou talvez porque reconhecesse no jovem aquele que um dia havia sido.

Na manhã do quarto dia, Mestre Kon olhou profundamente nos olhos de Yo Ping e perguntou

– O que buscas aqui?

– Sei que és um mestre e anseio por aprender contigo a sabedoria.

O mestre já suspeitava das intenções do aprendiz e, durante os três dias, havia estudado cuidadosamente as atitudes do jovem, percebera sua boa vontade, mas também havia notado algo fundamental.

– Conheces a ti mesmo?

Ele respondeu rapidamente

– Sim, mestre, creio que sou quem melhor me conhece em todo o mundo.

O mestre já esperava aquela resposta.

– Então, sabes que em tuas meditações sentas-te sempre sobre o teu pé direito, que inicias teu sono voltado para leste e acordas voltado para o sul. Sabes que a brisa da tarde faz-te coçar a orelha esquerda?

Yo Ping não sabia do que o mestre falava. A princípio julgou ser algum tipo de teste, de intimidação. Ele não sabia se em todas as vezes em que meditava sentava-se sobre o mesmo pé, nem podia garantir que sempre dormia voltado para leste, nem de que coceira o mestre falava.

Desta vez foi Yo Ping quem tornou-se silencioso e, por outros três dias, meditou sobre as observações do mestre. Notou a verdade nas palavras do ancião e, por fim, voltou à sua presença.

– Não, mestre, eu não me conheço.

– Talvez, agora tu tenhas começado a adquirir este conhecimento – replicou o mestre. A sabedoria é como o final duma viagem que não chega ao fim, o último passo sempre revela que haverá um próximo. O início da viagem, entretanto, repousa no auto-conhecimento. Vai, inicia tua viagem rumo à tua própria descoberta. Só quando julgares que cumpriu esta etapa é que poder-te-ei ensinar algo de valor.

– E quando saberei que é hora de voltar?

– No momento que teu auto-conhecimento for completo, sentirás que deves retornar até mim.

Yo Ping partiu naquela mesma manhã. Em seis dias havia conversado com o mestre apenas durante poucos minutos, mas sentia que aprendera o que necessitava naquele momento.

Mestre Kon, sem alteração perceptível no rosto, sorriu por dentro ao presenciar mais uma vez alguém iniciando a busca sincera por seu próprio conhecimento. Contemplou a partida do discípulo sabendo que havia-lhe ensinado tudo o que havia por se ensinar. Por fim, voltou às suas meditações.

Yo Ping refez o caminho de volta observando atentamente tudo o que fazia e o que pensava, como reagia às diversas situações. Quando avistou a vila natal, algo dentro de si o fez pensar que seria necessário algum afastamento, um tempo para aprender sozinho, sem interrupções ou distrações, quem ele realmente era.

Partiu no mesmo dia.

Procurou por terras remotas, onde pudesse viver com o básico oferecido pela natureza. Fixou acampamento numa região de planície, oposta à região de colinas onde habitava Mestre Kon.

Dia após dia, esmerou-se na tarefa que aceitara empreender. Entretanto, sempre achava que era necessário mais tempo. Passaram-se meses e anos, e Yo Ping jamais se sentia pronto para retornar à presença do seu mestre.

Certo dia, vinte e três anos após ter-se voluntariamente exilado na região dos vales, Yo Ping surpreendeu-se ao ser reverenciado por um jovem de aspecto compenetrado.

– Sei que és um mestre, e gostaria de contigo aprender o caminho da sabedoria.

Yo Ping, ou Mestre Ping, percebeu, então, toda a verdade. Sabia que jamais voltaria a ver Mestre Kon, mas, ao mesmo tempo, sabia que sua busca era genuína e teria de continuar.

Por três dias observou o jovem, cujo nome perdeu-se na poeira dos tempos, e na manhã do quarto dia, lançando um olhar profundamente piedoso sobre ele, Yo Ping perguntou:

– Conheces a ti mesmo?

sexta-feira, 20 de julho de 2018

As Misteriosas Peças do Sr. Borges




Na mesma linha de produção de literatura de ficção com elementos do jogo de xadrez, acabo de publicar mais um conto inédito na Amazon Brasil. O novo conto se chama "As Misteriosas Peças do Sr. Borges". Conheça mais sobre ele  abaixo:




Sinopse do conto:  Um jovem estudante, fascinado com um jogo de peças de xadrez que parecem ter vida própria, resolve encontrar o artesão que as fabrica e se oferece como aprendiz. A admiração pelo artista ancião logo dá lugar à desconfiança, quando pensa que os segredos de fabricação das peças lhe são sarcasticamente negados. Porém, ele não tardará a descobrir a verdade... ou o mais próximo disso!

Em breve, esse conto será também incluído no meu e-Book "O jogador que desejava perder", que passará a ter 13 contos. Quem já adquiriu o livro, receberá automaticamente a atualização, quem ainda não adquiriu poderá fazê-lo sem nenhum custo pelo novo conto adicionado à obra (continuará o mesmo preço inicial). A atualização do livro com o 13º conto deverá estar disponível até o final de julho corrente.




Sinopse do livro:  Nesta coletânea de 12 {em breve 13} contos com temática ligada ao jogo de xadrez, são exploradas as semelhanças muitas vezes ocultas entre a vida e o jogo. Há tantas ligações assim?

As seguintes palavras, presentes no prefácio, resumem bem esta obra:

"O que espera o enxadrista do outro lado da vida? Poderia Deus ter criado a humanidade por causa do "Rei dos Jogos"? Existe alguma coisa em comum entre o "Jogo da Seis Aflições" e a literatura? Saiba mais sobre o grande valor do peão; imagine como se sente uma peça durante o jogo e depois dele; ria com a tradução mais bizarra da história do xadrez; revolte-se com a trapaça que quase ninguém viu; veja muitas metáforas envolvendo peões; compreenda por que nunca se deve menosprezar um jogador, mesmo sendo ele um 'capivara'; acompanhe a profecia de um espelho sobre a última partida de um enxadrista; descubra o que acontece quando um jogador toca acidentalmente uma peça; conheça o lugar onde o resultado de uma partida de xadrez decidia quem deveria morrer e quem deveria viver."

Sem dúvidas, o leitor que não conhece o xadrez passará a ver o jogo com olhos mais atentos, enquanto que o enxadrista prático certamente verá que a riqueza do jogo vai bem além de combinações, táticas e estratégia, pois é metáfora precisa para quase todas as vicissitudes humanas.

segunda-feira, 25 de junho de 2018

Novo livro: O jogador que desejava perder





Após a primeira experiência de publicação de um livro, com "Que Peça eu quero ser?", passei a me dedicar aos textos aqui para o blog, além daqueles que publico no excelente blog Reino de Caíssa.

Já faz algum tempo que passei escrever contos e crônicas com o intuito de mostrar o enxadrista prático que xadrez também rende literatura e, por outro lado, apresentar o universo do xadrez ao leitor de contos e crônicas. Acredito que a estratégia tem rendido frutos, verificados via compartilhamentos espontâneos de meus textos em redes sociais ou em convites para colaborar em outros meios, como no 'Reino de Caíssa'. Isso tem sido por demais gratificante: é o que me motiva a continuar.

Há alguns meses, enquanto trabalhava num outro projeto enxadrístico-literário (do qual falarei daqui a algum tempo) percebi que tinha material suficiente para um pequeno livro de contos! Tamanho ideal para tentar meu primeiro passo na publicação independente online.

quarta-feira, 20 de junho de 2018

Xadrez x Futebol em tempos de Copa do Mundo na Rússia!





Nos grupos de discussão sobre xadrez é tolerado que apenas um assunto se intrometa algumas vezes: o futebol! Ainda mais agora, durante a Copa do Mundo da Rússia, a terra do xadrez!

Assim, não é de se estranhar que, em meio a comentários de torneios, problemas de mate em três e outros assuntos típicos do meio enxadrístico, apareçam provocações futebolísticas (ainda que rapidamente censuradas pelo administrador do grupo, que levanta um cartão amarelo).

Num dos grupos, apareceu um jogador que também é árbitro tanto de xadrez como de futebol! Foi o suficiente para aparecer uma pergunta sobre a eterna polêmica entre "mão na bola" × "bola na mão". Ao ler a excelente explicação do colega, pensei numa analogia com o xadrez:  "mão na bola" é "peça tocada, peça jogada", mas "bola na mão" é "j'adoube"!

quinta-feira, 26 de abril de 2018

Quando a partida termina (*)




Foto de Maarten van den Heuvel obtida em Unsplash.com

"Não sabem que a mão assinalada
do jogador governa seu destino,
não sabem que um rigor adamantino
sujeita seu arbítrio e sua jornada.

Também o jogador é prisioneiro
(a máxima é de Omar) de um tabuleiro
de negras noites e de brancos dias.

Deus move o jogador, e este, a peça.
Que deus detrás de Deus o ardil começa
de pó e tempo e sonho e agonias?"

(Jorge Luis Borges, Xadrez)


No fim da partida, enquanto apertam as mãos, os jogadores ainda discutem algumas variantes que não aconteceram sobre o tabuleiro, prometem um novo confronto em breve e terminam por se despedir. O dono das peças cuidadosamente as coloca na caixa, após a obrigatória contagem. Havia sido uma partida longa, as peças tinham feito inúmeros movimentos e manobras, o descanso era mais que merecido.
– Achava que o xeque-mate não ia chegar nunca. O meu jogador poderia ter vencido cinco jogadas antes, mas não viu. Depois da segunda hora de partida ele não estava enxergando mais nada!
– Ganha e ainda reclama... Pensa que é fácil permanecer de pé, parado, sabendo que o fim é inevitável? Ah, não é! Eu não via a hora de acabar logo aquele sofrimento e voltar aqui para relaxar.
– Sei como é, semana passada aconteceu comigo. Não pense que não vi que você estava segurando o riso, porque meu jogador deixou a oitava fila descoberta.
– Por favor, abram espaço para o artilheiro da noite.
– Ah, eu sabia, lá vem você se gabar do xeque-mate. Tudo bem, aproveite seu momento, sua vitória, afinal é tão difícil ver um jogador te usar para arrematar uma partida!
– Pode até ser raro, mas é lindo! Quem mais pode dar o mate afogado, quem!? O cavaleiro, claro!