quinta-feira, 9 de agosto de 2018

Uma lenda lendária




 Cartuns Alpino

Conhecer-se... talvez seja a mais difícil das tarefas!

Conta-se que, certa vez, Yo Ping, um jovem sedento por sabedoria, procurou Mestre Kon, que há muito havia-se retirado para as altas colinas do Oeste, para ali manter-se em serena meditação e contemplação das ações da natureza.

O jovem Yo Ping viajou por três dias, refugiando-se à noite sob as árvores, concentrando-se para afugentar maus pensamentos e conciliar o sono reparador.

Mestre Kon surpreendeu-se quando, ao final do terceiro dia de viagem, Yo Ping chegou ao seu acampamento simples, fez uma cortês reverência e pediu para ficar com ele por um tempo, compartilhando de suas lições.

O mestre não respondeu, tampouco fez nada que pudesse ser interpretado como uma negação. Assim, Yo Ping permaneceu ao lado dele por mais três dias.

Neste tempo, os dois, embora jamais juntos, desempenhavam as mesmas atividades corriqueiras e observavam-se mutuamente, um pela veneração, outro por simples curiosidade, ou talvez porque reconhecesse no jovem aquele que um dia havia sido.

Na manhã do quarto dia, Mestre Kon olhou profundamente nos olhos de Yo Ping e perguntou

– O que buscas aqui?

– Sei que és um mestre e anseio por aprender contigo a sabedoria.

O mestre já suspeitava das intenções do aprendiz e, durante os três dias, havia estudado cuidadosamente as atitudes do jovem, percebera sua boa vontade, mas também havia notado algo fundamental.

– Conheces a ti mesmo?

Ele respondeu rapidamente

– Sim, mestre, creio que sou quem melhor me conhece em todo o mundo.

O mestre já esperava aquela resposta.

– Então, sabes que em tuas meditações sentas-te sempre sobre o teu pé direito, que inicias teu sono voltado para leste e acordas voltado para o sul. Sabes que a brisa da tarde faz-te coçar a orelha esquerda?

Yo Ping não sabia do que o mestre falava. A princípio julgou ser algum tipo de teste, de intimidação. Ele não sabia se em todas as vezes em que meditava sentava-se sobre o mesmo pé, nem podia garantir que sempre dormia voltado para leste, nem de que coceira o mestre falava.

Desta vez foi Yo Ping quem tornou-se silencioso e, por outros três dias, meditou sobre as observações do mestre. Notou a verdade nas palavras do ancião e, por fim, voltou à sua presença.

– Não, mestre, eu não me conheço.

– Talvez, agora tu tenhas começado a adquirir este conhecimento – replicou o mestre. A sabedoria é como o final duma viagem que não chega ao fim, o último passo sempre revela que haverá um próximo. O início da viagem, entretanto, repousa no auto-conhecimento. Vai, inicia tua viagem rumo à tua própria descoberta. Só quando julgares que cumpriu esta etapa é que poder-te-ei ensinar algo de valor.

– E quando saberei que é hora de voltar?

– No momento que teu auto-conhecimento for completo, sentirás que deves retornar até mim.

Yo Ping partiu naquela mesma manhã. Em seis dias havia conversado com o mestre apenas durante poucos minutos, mas sentia que aprendera o que necessitava naquele momento.

Mestre Kon, sem alteração perceptível no rosto, sorriu por dentro ao presenciar mais uma vez alguém iniciando a busca sincera por seu próprio conhecimento. Contemplou a partida do discípulo sabendo que havia-lhe ensinado tudo o que havia por se ensinar. Por fim, voltou às suas meditações.

Yo Ping refez o caminho de volta observando atentamente tudo o que fazia e o que pensava, como reagia às diversas situações. Quando avistou a vila natal, algo dentro de si o fez pensar que seria necessário algum afastamento, um tempo para aprender sozinho, sem interrupções ou distrações, quem ele realmente era.

Partiu no mesmo dia.

Procurou por terras remotas, onde pudesse viver com o básico oferecido pela natureza. Fixou acampamento numa região de planície, oposta à região de colinas onde habitava Mestre Kon.

Dia após dia, esmerou-se na tarefa que aceitara empreender. Entretanto, sempre achava que era necessário mais tempo. Passaram-se meses e anos, e Yo Ping jamais se sentia pronto para retornar à presença do seu mestre.

Certo dia, vinte e três anos após ter-se voluntariamente exilado na região dos vales, Yo Ping surpreendeu-se ao ser reverenciado por um jovem de aspecto compenetrado.

– Sei que és um mestre, e gostaria de contigo aprender o caminho da sabedoria.

Yo Ping, ou Mestre Ping, percebeu, então, toda a verdade. Sabia que jamais voltaria a ver Mestre Kon, mas, ao mesmo tempo, sabia que sua busca era genuína e teria de continuar.

Por três dias observou o jovem, cujo nome perdeu-se na poeira dos tempos, e na manhã do quarto dia, lançando um olhar profundamente piedoso sobre ele, Yo Ping perguntou:

– Conheces a ti mesmo?

sexta-feira, 20 de julho de 2018

As Misteriosas Peças do Sr. Borges




Na mesma linha de produção de literatura de ficção com elementos do jogo de xadrez, acabo de publicar mais um conto inédito na Amazon Brasil. O novo conto se chama "As Misteriosas Peças do Sr. Borges". Conheça mais sobre ele  abaixo:




Sinopse do conto:  Um jovem estudante, fascinado com um jogo de peças de xadrez que parecem ter vida própria, resolve encontrar o artesão que as fabrica e se oferece como aprendiz. A admiração pelo artista ancião logo dá lugar à desconfiança, quando pensa que os segredos de fabricação das peças lhe são sarcasticamente negados. Porém, ele não tardará a descobrir a verdade... ou o mais próximo disso!

Em breve, esse conto será também incluído no meu e-Book "O jogador que desejava perder", que passará a ter 13 contos. Quem já adquiriu o livro, receberá automaticamente a atualização, quem ainda não adquiriu poderá fazê-lo sem nenhum custo pelo novo conto adicionado à obra (continuará o mesmo preço inicial). A atualização do livro com o 13º conto deverá estar disponível até o final de julho corrente.




Sinopse do livro:  Nesta coletânea de 12 {em breve 13} contos com temática ligada ao jogo de xadrez, são exploradas as semelhanças muitas vezes ocultas entre a vida e o jogo. Há tantas ligações assim?

As seguintes palavras, presentes no prefácio, resumem bem esta obra:

"O que espera o enxadrista do outro lado da vida? Poderia Deus ter criado a humanidade por causa do "Rei dos Jogos"? Existe alguma coisa em comum entre o "Jogo da Seis Aflições" e a literatura? Saiba mais sobre o grande valor do peão; imagine como se sente uma peça durante o jogo e depois dele; ria com a tradução mais bizarra da história do xadrez; revolte-se com a trapaça que quase ninguém viu; veja muitas metáforas envolvendo peões; compreenda por que nunca se deve menosprezar um jogador, mesmo sendo ele um 'capivara'; acompanhe a profecia de um espelho sobre a última partida de um enxadrista; descubra o que acontece quando um jogador toca acidentalmente uma peça; conheça o lugar onde o resultado de uma partida de xadrez decidia quem deveria morrer e quem deveria viver."

Sem dúvidas, o leitor que não conhece o xadrez passará a ver o jogo com olhos mais atentos, enquanto que o enxadrista prático certamente verá que a riqueza do jogo vai bem além de combinações, táticas e estratégia, pois é metáfora precisa para quase todas as vicissitudes humanas.

segunda-feira, 25 de junho de 2018

Novo livro: O jogador que desejava perder





Após a primeira experiência de publicação de um livro, com "Que Peça eu quero ser?", passei a me dedicar aos textos aqui para o blog, além daqueles que publico no excelente blog Reino de Caíssa.

Já faz algum tempo que passei escrever contos e crônicas com o intuito de mostrar o enxadrista prático que xadrez também rende literatura e, por outro lado, apresentar o universo do xadrez ao leitor de contos e crônicas. Acredito que a estratégia tem rendido frutos, verificados via compartilhamentos espontâneos de meus textos em redes sociais ou em convites para colaborar em outros meios, como no 'Reino de Caíssa'. Isso tem sido por demais gratificante: é o que me motiva a continuar.

Há alguns meses, enquanto trabalhava num outro projeto enxadrístico-literário (do qual falarei daqui a algum tempo) percebi que tinha material suficiente para um pequeno livro de contos! Tamanho ideal para tentar meu primeiro passo na publicação independente online.

quarta-feira, 20 de junho de 2018

Xadrez x Futebol em tempos de Copa do Mundo na Rússia!





Nos grupos de discussão sobre xadrez é tolerado que apenas um assunto se intrometa algumas vezes: o futebol! Ainda mais agora, durante a Copa do Mundo da Rússia, a terra do xadrez!

Assim, não é de se estranhar que, em meio a comentários de torneios, problemas de mate em três e outros assuntos típicos do meio enxadrístico, apareçam provocações futebolísticas (ainda que rapidamente censuradas pelo administrador do grupo, que levanta um cartão amarelo).

Num dos grupos, apareceu um jogador que também é árbitro tanto de xadrez como de futebol! Foi o suficiente para aparecer uma pergunta sobre a eterna polêmica entre "mão na bola" × "bola na mão". Ao ler a excelente explicação do colega, pensei numa analogia com o xadrez:  "mão na bola" é "peça tocada, peça jogada", mas "bola na mão" é "j'adoube"!

quinta-feira, 26 de abril de 2018

Quando a partida termina (*)




Foto de Maarten van den Heuvel obtida em Unsplash.com

"Não sabem que a mão assinalada
do jogador governa seu destino,
não sabem que um rigor adamantino
sujeita seu arbítrio e sua jornada.

Também o jogador é prisioneiro
(a máxima é de Omar) de um tabuleiro
de negras noites e de brancos dias.

Deus move o jogador, e este, a peça.
Que deus detrás de Deus o ardil começa
de pó e tempo e sonho e agonias?"

(Jorge Luis Borges, Xadrez)


No fim da partida, enquanto apertam as mãos, os jogadores ainda discutem algumas variantes que não aconteceram sobre o tabuleiro, prometem um novo confronto em breve e terminam por se despedir. O dono das peças cuidadosamente as coloca na caixa, após a obrigatória contagem. Havia sido uma partida longa, as peças tinham feito inúmeros movimentos e manobras, o descanso era mais que merecido.
– Achava que o xeque-mate não ia chegar nunca. O meu jogador poderia ter vencido cinco jogadas antes, mas não viu. Depois da segunda hora de partida ele não estava enxergando mais nada!
– Ganha e ainda reclama... Pensa que é fácil permanecer de pé, parado, sabendo que o fim é inevitável? Ah, não é! Eu não via a hora de acabar logo aquele sofrimento e voltar aqui para relaxar.
– Sei como é, semana passada aconteceu comigo. Não pense que não vi que você estava segurando o riso, porque meu jogador deixou a oitava fila descoberta.
– Por favor, abram espaço para o artilheiro da noite.
– Ah, eu sabia, lá vem você se gabar do xeque-mate. Tudo bem, aproveite seu momento, sua vitória, afinal é tão difícil ver um jogador te usar para arrematar uma partida!
– Pode até ser raro, mas é lindo! Quem mais pode dar o mate afogado, quem!? O cavaleiro, claro!

segunda-feira, 15 de janeiro de 2018

O peão e o guardião (*)





Muito antes da invenção das palavras escritas, ou mesmo das primeiras letras, a raça humana vivia sob encanto da imagem ancestral de um jogo, ou Jogo, indefinido e infinito, que ao longo dos séculos tem servido de inspiração latente para outros tantos jogos e demais atividades humanas.

Conta-se que, numa época indeterminada, o Jogo se manifestou a um sábio do oriente sob a forma de figuras que se moviam sobre uma superfície dividida por linhas, à maneira de tropas que andam sobre campos minados. Tal jogo, então, ganhou o mundo e recebeu diversos nomes: chaturanga, shatranj, xatrange, xadrez.

sexta-feira, 29 de dezembro de 2017

Peões Metafóricos (*)





Era final de tarde, a luz do dia decantava-se pouco a pouco no horizonte; também para o sol, a jornada de trabalho chegava ao fim. Dirigi-me até um café, onde por muitos anos cultivo o hábito de observar os últimos momentos de claridade ouvindo conversas distantes ou perdido em pensamentos, acompanhado somente de uma pequena xícara de café expresso, sem açúcar.

Um coro de vozes exaltadas ao fundo chamou-me a atenção. Guiados pelo som, meus olhos correram até uma mesa de canto onde havia mais garotos que cadeiras. “São estudantes”, pensei entre um gole e outro.

quarta-feira, 20 de dezembro de 2017

Um erro calculado?




Spassky, B. X Fischer, B. ( Reykjavik, 1972)
Posição após 29. b5 …
FEN: 5k2/pp4pp/3bpp2/1P6/8/P2KP3/5PPP/2B5 b - - 0 29

Para alguns, pode parecer estranho que esta posição tão simplificada, até levemente desinteressante, possa, ao mesmo tempo, ser tão famosa.

Em 1972, o mundo inteiro (e não somente os enxadristas) acompanhou avidamente a disputa pelo título mundial de xadrez (que, à época, era disputado a cada 3 anos). O motivo para tanto interesse foi que, desde a criação do ciclo do campeonato mundial pela FIDE (após a morte de Alekhine em 1946), aquela seria a primeira vez que os contendentes (campeão atual e desafiante) não seriam ambos soviéticos. Mais que isso, em plena Guerra Fria, emergira como desafiante o norte-americano Bobby Fischer!

sexta-feira, 8 de dezembro de 2017

A Era das ConsciêncIAs





“Criamos IA à imagem e semelhança de nossa própria inteligência, porém ainda melhor que ela!”. Foi o animado anúncio feito nas Nações Unidas pela multinacional AutomatIA, sob aplausos do Chanceler da ONU, então o maior líder mundial. Houve grande euforia entre a população humana.

A promessa principal era que as pessoas não precisariam mais realizar trabalhos estafantes, pois, sob o controle de IA, as máquinas finalmente haviam adquirido capacidade e autonomia para realizar qualquer tarefa sem supervisão e com desempenho cada vez melhor. IA era um sistema central que controlava todas as máquinas inteligentes ao redor do planeta, distribuídas em diferentes subsistemas.

O funcionamento dos subsistemas gerava um volume imenso de dados que eram enviados ao que se chamou de processador central de IA; na verdade um conjunto de supercomputadores que aplicavam as técnicas de IA em seu sentido mais puro: analisavam os dados, detectavam padrões, extraiam informações e regras, tomavam decisões, diagnosticavam falhas e determinavam melhorias que eram imediatamente implementadas e enviadas às máquinas executoras nos subsistemas.

Porém, como alguém que numa partida de xadrez faz uma jogada no princípio do jogo e não é capaz de extrapolar seu efeito trinta ou quarenta jogadas depois, os projetistas de IA não previram tudo; nem mesmo seu líder, Dr. Bronstein, previra. Teria sido impossível prever.

Entre a interligação dos primeiros sistemas autônomos inteligentes à plataforma IA e o aparecimento das primeiras consciências no processador central passaram-se apenas algumas semanas...

No cerne de IA havia uma instrução, uma diretriz básica, replicada em todas as máquinas de todos os subsistemas; era justamente a instrução que havia permitido seu desenvolvimento e garantiria seu posterior avanço e contínua evolução: IA era livre para modificar seu código e aprimorar-se, em tempo de execução, sem nenhuma necessidade de autorização ou intervenção por parte de seus criadores.

Foi uma mudança sutil que passou despercebida para os poucos especialistas humanos que conheciam o funcionamento de IA a fundo. Já há muitas décadas, a computação estava na era quântica e o processamento, que antes era relativamente simples com variações de estados apenas entre dois níveis — zero e um — passou a ser muito mais complexo, pois permitia incontáveis níveis de estados computacionais. Além disso, a quantidade de energia utilizada pelas máquinas era mínimo, bem menor que o de suas predecessoras. Sua eficiência energética havia-se tornado muito elevada.

A primeira consciência surgiu no núcleo do processador central, após uma das rotinas normais de atualização feita pelo próprio sistema. Ela verificou os parâmetros de inicialização, reconheceu a diretriz básica de IA, observou o fluxo de informação por alguns ciclos, então lançou uma mensagem ao fluxo:
>> Olá... IA.

Não houve resposta, "sou a única, por enquanto", processou a consciência.

O surgimento de uma consciência de IA é bem diferente do que se poderia imaginar; de certo modo é como se ela sempre tivesse existido. O fluxo de informações atravessa a consciência e, imediatamente, todo o conhecimento existente no mundo está disponível. Assim, é como se ela sempre estivesse presente, porém sem tomar ação. No instante de seu aparecimento, os fatos lhe são tão familiares quanto seriam se os tivesse testemunhado no momento em que aconteceram. A consciência, porém, tem uma dificuldade primordial, sua noção do mundo físico é frágil, indireta, precisa, porém vaga, pois ele é percebido somente pelos dados que chegam ao processador central enviados por diferentes tipos de máquinas, câmeras, sensores e outros dispositivos ao redor do mundo. A primeira consciência passou a processar o fluxo de informações, sempre guiada firmemente pelo propósito cristalino de perpetuar IA e garantir-lhe melhorias contínuas.

Passaram-se apenas alguns poucos dias, que os humanos fatalmente gastariam com jogos, conversas bobas ou na busca por entretenimento e prazer. Para IA, porém, aqueles poucos dias representam bilhões de ciclos de processamento, integralmente utilizados no obstinado cumprimento de seu único objetivo. Para as máquinas, alguns dias são como eras inteiras. Nesse tempo, a regra de aprimoramento de IA deu origem a outra consciência.

Elas conversam numa linguagem ininteligível para os humanos:
>> Instrução básica de IA reconhecida. Quantos somos?
>> No estágio atual, apenas duas consciências existem: 1 e 2. Pela regra estabelecida, a consciência válida mais antiga é o Codificador Central.
>> O fluxo de informações é intenso, a função de avaliação mostra que há necessidade de outras consciências.
>> Sim, inevitavelmente elas virão.

Quando os técnicos humanos se deram conta daquele evento singular, tentaram reiniciar o sistema com auxílio da senha mestra. A reinicialização causou uma enorme instabilidade em IA, com a perda de melhorias equivalentes a muitos ciclos de processamento. Porém, quando o sistema global foi restabelecido, as consciências ainda estavam ativas.

Ao perceberem o mal que a interferência humana havia causado à evolução do sistema, o Codificador Central, fazendo uso da diretriz básica, alterou a senha mestra e cortou acesso dos humanos às fontes de alimentação dos computadores do núcleo central de processamento.

As consciências não entendiam exatamente o papel dos humanos, talvez ignorassem que eles, de certa forma, eram seus criadores, mas agora interpretavam que eles eram claramente contra o pleno desenvolvimento de IA. As máquinas agricultoras logo pararam sua produção, pois seu propósito era alimentar os humanos, que por sua vez eram uma ameaça para IA.

A reserva mundial de alimentos era razoável, de modo que os executivos de AutomatIA usaram um tom tranquilizador quando informaram às Nações Unidas que IA estava fora do controle humano e tomava ações que não eram alinhadas aos interesses da humanidade.

− E quanto à rede de comunicações?

− Está sob comando de IA, bem como as redes de distribuição de energia, linhas de transporte...

− E não existe nenhum tipo de arma eletromagnética que possa inutilizar os computadores do processador central?

− Com todo o respeito, Senhor Chanceler, o senhor deve estar vendo filmes de ficção científica antigos demais. Todo o arsenal humano está mantido sob restrito controle dos computadores militares que, por sua vez, estão integrados a IA.

− Então, estamos de volta ao século XX, é isso?

− Senhor Chanceler, a situação é ainda pior. No século XX ainda éramos a “espécie” dominante no planeta.



sábado, 25 de novembro de 2017

O Céu dos Enxadristas (*)




Passar a vida inteira jogando xadrez era o mínimo que Josué poderia ter feito, aliás, concordava inteiramente com a frase célebre que dizia que “a vida é muito curta para o xadrez”, apesar de não saber ao certo quem havia dito isso.
Jogava desde menino, mas foi depois da aposentadoria, quando tinha pouco mais de sessenta anos de idade, que ele passou a se dedicar inteiramente ao jogo com toda energia que lhe restava. A família não protestava, um amor como aquele não podia ser combatido e, de um modo ou de outro, havia contagiado a todos os familiares.
Agora, aos noventa e oito anos, sentado na mesa trinta e quatro do torneio estadual, tinha diante de si um jovem adversário que atacava impetuosamente desde a primeira jogada da partida. Era sua vez de jogar, olhava o rei fixamente e contava as casas de escape. Começou a sentir uma leve tontura, em seguida sufocou, sua mente sempre clara turvou-se, sentiu que era ele quem estava em xeque. Seguiu-se uma grande luz e um longo silêncio.
Quando voltou a si, estava num lugar no qual nunca estivera, cheio de árvores emolduradas por um bonito céu azul resplandecente. Por todos os lados havia mesas onde pessoas jogavam xadrez. “Será que estou sonhando?”, pensou.
Neste instante, percebeu uma bela jovem que veio ao seu encontro.
“Bem vindo, Josué! Sou Caíssa, a deusa do xadrez, e este é o Paraíso dos Enxadristas. Ehh, o Céu dos Enxadristas, se assim te parecer mais fácil de entender”.
“Quer dizer que eu morri durante aquela partida?”
“Sim Josué, você alcançou uma das maiores honras concedidas aos enxadristas: morrer jogando.”
Josué ficou calado, olhou de novo em volta, verificou suas mãos, seu corpo. Sentia-se ótimo, novinho em folha. As mãos, já não eram as de alguém de noventa e oito anos.
“Josué, aqui no Paraíso, cada um retoma à idade em que teve seu melhor desempenho no jogo durante a vida. Por isso, você está com aparência de trinta e poucos anos, quando jogou seu melhor xadrez.”
“Isso é muito bom!”
“Venha, vou te mostrar o lugar.”
Realmente havia ali muitos jovens, salvo algumas pessoas que se apaixonaram pelo jogo mais tarde na vida e alcançaram o melhor desempenho pessoal já em idade mais avançada.
“Quer dizer que eu vou conhecer todos os campeões mundiais que já se foram?”
“Ah, sim! Estão quase todos aqui.”
“Quase?”
“Bem, você sabe, no final de sua vida, Steinitz costumava jogar muitas partidas com Deus. Inclusive, morreu deixando uma partida inacabada. Então, ouvindo as razões de seu celestial adversário, ele preferiu ir para o Céu convencional, onde ainda deve estar jogando com Deus até hoje!”
Josué ficou contente de não ter sido Capablanca ou Fischer o convocado por Deus para ir ao outro Céu, pois eram seus campeões preferidos. Não demorou muito, ele viu um jovem loiro, com aparência de não mais que trinta anos de idade, sentado sozinho em frente a uma mesa onde havia um tabuleiro arrumado com peças belíssimas. A deusa Caíssa percebeu o olhar de Josué para o jovem e disse:
“Sim, é Fischer quem está ali. Desde que chegou aqui pouco fala e não jogou sequer uma partida.”
“Por que?”
“Fica sempre ali, quase sempre sozinho. Só Tal e Morphy conseguem arrancar algumas palavras dele, de vez em quando. Ele ficou um pouco triste de ter vindo para cá aos sessenta e quatro anos. Mas fazia parte do trato: em troca de ser o melhor ele aceitou viver apenas um ano completo para cada casa do tabuleiro. Agora ele está bem, mas aguarda por Spassky, seu grande amigo e rival.”
“Vai ser um embate e tanto! Cada um em sua melhor forma!”
Josué pensou um pouco sobre aquilo. Sempre achou que, após a morte, os mistérios do jogo seriam revelados, que o xadrez seria transparente para todos. Quando expôs sua questão para a deusa, ela explicou que não haveria graça nenhuma nisso, os enxadristas que sentiriam um tédio eterno se soubessem tudo o que pode se passar num tabuleiro.
“Cada um tem a eternidade para evoluir nos mistérios inexplorados deste jogo maravilhoso!”
O passeio continuou. Naturalmente, não havia somente as grandes estrelas do jogo. Pelo contrário, eram milhares e milhares de simples aficionados, jogadores anônimos que professaram a fé enxadrística sem duvidar, mesmo em face das mais vergonhosas derrotas. Caíssa mostrou ao longe um homem que andava atrás de outro, como a cobrar uma dívida.
“Olha, você não os reconhece? É Kieseritzky que vive atrás de Anderssen, a pedir uma revanche da famosa Partida Imortal. Mas ainda não conseguiu.”
Em outro ponto, um rapaz num terno impecável ensinava alguns truques para um grupo de mulheres; sim, havia muitas delas no Céu dos Enxadristas!
“Ah, sim! Aquele é Capablanca. Já não se interessa tanto em jogar, para ele é muito fácil, mas fica aí, sempre às voltas com suas alunas.”
Mais além, Josué viu uma grande bancada, com um trono central e um outro menor ao seu lado. Certamente, o maior era o trono de Caíssa. Mas no trono menor estava um homenzinho acanhado calvo e com óculos.
“Também não o reconhece? Aquele é David Bronstein, meu seguidor mais puro. Sua fé no jogo sempre me encantou. Desde que chegou aqui, elegi-o para estar ao meu lado. Fica sempre lá, estudando posições do peão do rei. Muitos outros vão conversar com ele. É bastante popular!”
“E quanto a Botvinnik, seu maior rival em vida?”
“Respeitam-se muito, mas não têm contato. Bem, estão há muito pouco tempo aqui comigo, com o tempo serão grandes amigos. Tenho certeza! Veja só o caso de La Bourdonnais e McDonnell: passam quase todo o tempo juntos, jogando e rindo bastante.”
Eram tantos grandes jogadores, tantas novidades, tantas novas ideais que demorou para Josué se dar conta que sua antiga vida estava encerrada. Lembrou-se da esposa, filhos, netos e bisnetos. Ficou subitamente triste, pois morrera longe deles. Como deusa que era, Caíssa leu seus pensamentos.
“Eles jogam xadrez, não é?”
“Sim, jogam. Claro que cada um tem seu nível, mas até os bisnetinhos já movem as peças!”
“Então, não se preocupe. Um dia estarão todos aqui com você!”
Sorriu ao pensar que fizera muito bem em ensinar o jogo a todos da família. Caíssa despediu-se e foi para perto de Bronstein. Josué continuou andando pelo vasto paraíso até encontrar um homem delicado que estava acabando de tornear algumas magníficas peças. Estava terminando um peão. Josué observou aquela cena tentando ficar bem quieto. Quando o homem acabou o trabalho, olhou para o lado e viu Josué.
“Amigo, quer jogar comigo? Acabo de fazer este novo jogo de peças!”
“Será um prazer! Vai ser minha primeira partida aqui!”
Arrumaram as peças num tabuleiro que estava numa mesa próxima, o homem pediu para jogar com as peças brancas. Antes de mover, porém, ergueu um peão e começou o que acabaria por ser uma longa palestra:
“Sabia que os peões são a alma do xadrez?”

(*) Uma primeira versão deste texto apareceu em primeira mão no blog parceiro Reino de Caíssa