sexta-feira, 29 de dezembro de 2017

Peões Metafóricos (*)





Era final de tarde, a luz do dia decantava-se pouco a pouco no horizonte; também para o sol, a jornada de trabalho chegava ao fim. Dirigi-me até um café, onde por muitos anos cultivo o hábito de observar os últimos momentos de claridade ouvindo conversas distantes ou perdido em pensamentos, acompanhado somente de uma pequena xícara de café expresso, sem açúcar.

Um coro de vozes exaltadas ao fundo chamou-me a atenção. Guiados pelo som, meus olhos correram até uma mesa de canto onde havia mais garotos que cadeiras. “São estudantes”, pensei entre um gole e outro.


– Eu garanto que é assim: o peão que chega ao final do tabuleiro só pode ser trocado por uma rainha.

– Que rainha!? É dama, vê se aprende!

Os risos e brincadeiras por um momento suspenderam o embate, até outro rapazote colocar mais lenha na fogueira:

– O peão pode ser trocado por qualquer peça, isso é óbvio, já vi meu avô fazendo isso. Mas ele me disse que vai depender: se o peão alcança a casa inicial de um cavalo, ele é trocado por cavalo, se é a casa inicial de um bispo, é trocado por um bispo, e assim por diante.

– Que absurdo! E se for na casa onde começa o rei?

– Ah, aí como não pode pedir outro rei, ele é trocado pela dama.

– Pelo que sei, só podemos trocar o peão por uma peça que já tenha sido perdida para o adversário. Senão o peão nem pode ser avançado, tem que esperar na sétima fila até que a peça desejada suma do tabuleiro.

Ao escutar aquilo, outro menino levantou a voz em tom mais alto que os demais para poder ser ouvido.

– Nada disso, o peão pode ser avançado sim, mesmo que ainda não possa ser trocado por outra peça. Mas ele fica lá, imune. Não pode ser capturado.

– Não faz sentido! Um peão parado lá no fim do tabuleiro, sem poder mais se mover, sem poder capturar outras peças, não pode nem dar xeque!? Não serviria para nada. O que realmente acontece é que o peão ganha o direito de ser trocado por outra peça quando chega ao final do tabuleiro, mas a troca só pode ser realizada depois que ele retorna até a segunda fileira, de onde partiu no começo da partida!

Por um átimo os demais se entreolharam calados, surpresos com aquela nova possibilidade, mas logo gritaram em uníssono:

– O quê????

– Calma, eu explico. Quando o peão chega na última casa, além de ganhar o direito de ser promovido, ele também passa a poder andar para trás, pulando duas casas por jogada, assim em três lances ele retorna para a segunda fileira do tabuleiro e só aí pode ser trocado pela peça escolhida.

Aqueles jovens falavam de um jogo do qual eu não lembrava há muitos anos. Também na minha juventude eu participara de discussões apaixonadas como aquela: sobre tomadas en passant, roques, afogamento do rei etc. Eram conjecturas de meninos que aprendiam o jogo às pressas, sem ler regras aprofundadas ou manuais, mas que tinham a curiosidade aguçada pelas situações práticas que enfrentavam em suas partidas experimentais. Sem saber, os principiantes refazem, nessas discussões, diferentes variações que realmente ocorreram no jogo ao longo dos séculos, em sua evolução até o formato atual.

Ainda ouvia as vozes acaloradas ao fundo, mas já eram como as saudosas vozes de meus amigos de rua e de escola, como se eu voltasse a ser um aprendiz dos primeiros encantos do xadrez. Nem percebi o pôr do sol, e o meu café também já tinha acabado. Por impulso, olhei o fundo da xícara, e não me surpreendi ao notar que a borra havia formado a indistinta silhueta de um cavalo. Paguei a conta e dirigi-me à saída. Porém, há dois passos da porta, resolvi voltar e dar minha contribuição à acalorada disputa.

Os garotos se calaram, desconfiados de minha repentina aproximação. Mas, como quem dá um xeque a descoberto, não dei tempo para perguntas:

– Quando eu jogava, sempre escolhia trocar meus peões que chegavam ao final do tabuleiro por cavalos. Sabem por quê?

Seus olhares curiosos foram a resposta que queria:

– É que naquele tempo, se você promovesse o peão a cavalo, imediatamente podia fazer uma nova jogada com ele!

Não esperei pelas reações. Virei-me e sai rapidamente, certo de que aqueles meninos logo consultariam algum manual e descobririam que um peão que chega ao final do tabuleiro pode ser trocado por qualquer peça (exceto o rei), não importa quais peças ainda estejam no tabuleiro.

No percurso até minha casa, um tanto nostálgico, pensei sobre a fortuita metáfora que podia ser feita com base nas cenas e conversas que acabara de presenciar: aqueles garotos eram como peões que seguiam seus primeiros passos nos caminhos da vida.

Quanto a mim? Bem, no momento estou no final do tabuleiro, imune e quieto, esperando a chance de dar alguns passos para trás… até a casa inicial, para receber minha merecida promoção.


(*) Uma primeira versão deste texto apareceu em primeira mão no blog parceiro Reino de Caíssa

2 comentários:

Unknown disse...

Cenas do cotidiano, sempre tão ricas! assim como as possibilidades de jogadas no próprio tabuleiro da vida. Você é um vencedor, seu momento de glória se aproxima...

Kasé disse...

Que bacana, Rewbenio! Apesar de já encontrar-me na fase adulta da vida, confesso que me vejo ainda como esses jovens no que se refere ao jogo do xadrez, já que nunca me aprofundei no jogo como gostaria. Bela lembrança fazer-me sentir como se fosse um daqueles jovens da estória. Uma vez mais, parabéns!!!