sábado, 25 de novembro de 2017

O Céu dos Enxadristas (*)




Passar a vida inteira jogando xadrez era o mínimo que Josué poderia ter feito, aliás, concordava inteiramente com a frase célebre que dizia que “a vida é muito curta para o xadrez”, apesar de não saber ao certo quem havia dito isso.
Jogava desde menino, mas foi depois da aposentadoria, quando tinha pouco mais de sessenta anos de idade, que ele passou a se dedicar inteiramente ao jogo com toda energia que lhe restava. A família não protestava, um amor como aquele não podia ser combatido e, de um modo ou de outro, havia contagiado a todos os familiares.
Agora, aos noventa e oito anos, sentado na mesa trinta e quatro do torneio estadual, tinha diante de si um jovem adversário que atacava impetuosamente desde a primeira jogada da partida. Era sua vez de jogar, olhava o rei fixamente e contava as casas de escape. Começou a sentir uma leve tontura, em seguida sufocou, sua mente sempre clara turvou-se, sentiu que era ele quem estava em xeque. Seguiu-se uma grande luz e um longo silêncio.
Quando voltou a si, estava num lugar no qual nunca estivera, cheio de árvores emolduradas por um bonito céu azul resplandecente. Por todos os lados havia mesas onde pessoas jogavam xadrez. “Será que estou sonhando?”, pensou.
Neste instante, percebeu uma bela jovem que veio ao seu encontro.
“Bem vindo, Josué! Sou Caíssa, a deusa do xadrez, e este é o Paraíso dos Enxadristas. Ehh, o Céu dos Enxadristas, se assim te parecer mais fácil de entender”.
“Quer dizer que eu morri durante aquela partida?”
“Sim Josué, você alcançou uma das maiores honras concedidas aos enxadristas: morrer jogando.”
Josué ficou calado, olhou de novo em volta, verificou suas mãos, seu corpo. Sentia-se ótimo, novinho em folha. As mãos, já não eram as de alguém de noventa e oito anos.
“Josué, aqui no Paraíso, cada um retoma à idade em que teve seu melhor desempenho no jogo durante a vida. Por isso, você está com aparência de trinta e poucos anos, quando jogou seu melhor xadrez.”
“Isso é muito bom!”
“Venha, vou te mostrar o lugar.”
Realmente havia ali muitos jovens, salvo algumas pessoas que se apaixonaram pelo jogo mais tarde na vida e alcançaram o melhor desempenho pessoal já em idade mais avançada.
“Quer dizer que eu vou conhecer todos os campeões mundiais que já se foram?”
“Ah, sim! Estão quase todos aqui.”
“Quase?”
“Bem, você sabe, no final de sua vida, Steinitz costumava jogar muitas partidas com Deus. Inclusive, morreu deixando uma partida inacabada. Então, ouvindo as razões de seu celestial adversário, ele preferiu ir para o Céu convencional, onde ainda deve estar jogando com Deus até hoje!”
Josué ficou contente de não ter sido Capablanca ou Fischer o convocado por Deus para ir ao outro Céu, pois eram seus campeões preferidos. Não demorou muito, ele viu um jovem loiro, com aparência de não mais que trinta anos de idade, sentado sozinho em frente a uma mesa onde havia um tabuleiro arrumado com peças belíssimas. A deusa Caíssa percebeu o olhar de Josué para o jovem e disse:
“Sim, é Fischer quem está ali. Desde que chegou aqui pouco fala e não jogou sequer uma partida.”
“Por que?”
“Fica sempre ali, quase sempre sozinho. Só Tal e Morphy conseguem arrancar algumas palavras dele, de vez em quando. Ele ficou um pouco triste de ter vindo para cá aos sessenta e quatro anos. Mas fazia parte do trato: em troca de ser o melhor ele aceitou viver apenas um ano completo para cada casa do tabuleiro. Agora ele está bem, mas aguarda por Spassky, seu grande amigo e rival.”
“Vai ser um embate e tanto! Cada um em sua melhor forma!”
Josué pensou um pouco sobre aquilo. Sempre achou que, após a morte, os mistérios do jogo seriam revelados, que o xadrez seria transparente para todos. Quando expôs sua questão para a deusa, ela explicou que não haveria graça nenhuma nisso, os enxadristas que sentiriam um tédio eterno se soubessem tudo o que pode se passar num tabuleiro.
“Cada um tem a eternidade para evoluir nos mistérios inexplorados deste jogo maravilhoso!”
O passeio continuou. Naturalmente, não havia somente as grandes estrelas do jogo. Pelo contrário, eram milhares e milhares de simples aficionados, jogadores anônimos que professaram a fé enxadrística sem duvidar, mesmo em face das mais vergonhosas derrotas. Caíssa mostrou ao longe um homem que andava atrás de outro, como a cobrar uma dívida.
“Olha, você não os reconhece? É Kieseritzky que vive atrás de Anderssen, a pedir uma revanche da famosa Partida Imortal. Mas ainda não conseguiu.”
Em outro ponto, um rapaz num terno impecável ensinava alguns truques para um grupo de mulheres; sim, havia muitas delas no Céu dos Enxadristas!
“Ah, sim! Aquele é Capablanca. Já não se interessa tanto em jogar, para ele é muito fácil, mas fica aí, sempre às voltas com suas alunas.”
Mais além, Josué viu uma grande bancada, com um trono central e um outro menor ao seu lado. Certamente, o maior era o trono de Caíssa. Mas no trono menor estava um homenzinho acanhado calvo e com óculos.
“Também não o reconhece? Aquele é David Bronstein, meu seguidor mais puro. Sua fé no jogo sempre me encantou. Desde que chegou aqui, elegi-o para estar ao meu lado. Fica sempre lá, estudando posições do peão do rei. Muitos outros vão conversar com ele. É bastante popular!”
“E quanto a Botvinnik, seu maior rival em vida?”
“Respeitam-se muito, mas não têm contato. Bem, estão há muito pouco tempo aqui comigo, com o tempo serão grandes amigos. Tenho certeza! Veja só o caso de La Bourdonnais e McDonnell: passam quase todo o tempo juntos, jogando e rindo bastante.”
Eram tantos grandes jogadores, tantas novidades, tantas novas ideais que demorou para Josué se dar conta que sua antiga vida estava encerrada. Lembrou-se da esposa, filhos, netos e bisnetos. Ficou subitamente triste, pois morrera longe deles. Como deusa que era, Caíssa leu seus pensamentos.
“Eles jogam xadrez, não é?”
“Sim, jogam. Claro que cada um tem seu nível, mas até os bisnetinhos já movem as peças!”
“Então, não se preocupe. Um dia estarão todos aqui com você!”
Sorriu ao pensar que fizera muito bem em ensinar o jogo a todos da família. Caíssa despediu-se e foi para perto de Bronstein. Josué continuou andando pelo vasto paraíso até encontrar um homem delicado que estava acabando de tornear algumas magníficas peças. Estava terminando um peão. Josué observou aquela cena tentando ficar bem quieto. Quando o homem acabou o trabalho, olhou para o lado e viu Josué.
“Amigo, quer jogar comigo? Acabo de fazer este novo jogo de peças!”
“Será um prazer! Vai ser minha primeira partida aqui!”
Arrumaram as peças num tabuleiro que estava numa mesa próxima, o homem pediu para jogar com as peças brancas. Antes de mover, porém, ergueu um peão e começou o que acabaria por ser uma longa palestra:
“Sabia que os peões são a alma do xadrez?”

(*) Uma primeira versão deste texto apareceu em primeira mão no blog parceiro Reino de Caíssa

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