terça-feira, 24 de outubro de 2017

Xadrez e Futebol: separados na infância! (*)





Nos grupos de discussão sobre xadrez, há somente um assunto que se intromete algumas vezes: o futebol!

Claro, estamos no Brasil, que, pelo menos até o 7 x 1, era considerado o ‘País do Futebol’. Assim, não é de se estranhar que, em meio a comentários de torneios, problemas de mate em três e outros assuntos típicos do meio enxadrístico, apareçam provocações futebolísticas (ainda que rapidamente censuradas pelo administrador do grupo, que levanta um cartão amarelo).

Num dos grupos, apareceu um jogador que também é árbitro de xadrez e de futebol! Foi o suficiente para aparecer uma pergunta sobre a eterna polêmica entre ‘mão na bola’ x ‘bola na mão’. Ao ler a excelente explicação do colega, pensei numa analogia com o xadrez:  ‘mão na bola’ é ‘peça tocada, peça jogada!’, mas ‘bola na mão’ é ‘j’adoube!’.

Haveria mais alguma analogia? Fiquei pensando depois (certamente eu não fui o primeiro). Se o xadrez é a vida em miniatura e o futebol é uma caixinha de surpresas, poderia encontrar mais coisas em comum.

Os esquemas táticos podem ser comparados às aberturas: o 1-2-7 é o Gambito do Rei, o 4-4-2 é a Ruy Lopez, o “Carrossel Holandês” é o Ataque Fegatello, o 4-5-1 é o Sistema London; e por aí vai.

Há também clara analogia entre as peças no tabuleiro e as posições dos jogadores em campo: os peões são a zaga, os cavalos são os volantes, as torres os laterais, os bispos jogam no meio-campo e a dama é a artilheira. O rei, claro, fica no gol! Até o enxadrista tem lugar na analogia: ele é o técnico da equipe (mas, graças a Deus, é bem menos xingado).

Se tem uma coisa que não deu para comparar entre xadrez e futebol foi a torcida. Neste quesito são diametralmente opostos: em campo são numerosos e barulhentos torcedores; ao redor do tabuleiro, quando muito, se reúnem alguns silenciosos perus (mães, namoradas, namorados e afins não costumam aparecer).

Mas. quando o assunto é quem foi melhor do que quem, aí fica tudo parecido de novo! Esses dias, num grupo, voltou a eterna polêmica: quem foi melhor, Fischer ou Kasparov (ou outro)? Apaixonadas razões foram levantadas por fãs incansáveis de um e do outro, fatos citados, especulações lançadas, números debulhados! Mas a polêmica nunca termina. Aí eu lembrei do futebol de novo: Fischer é Pelé, Kasparov é Maradona!

Pra quê?

Alguns protestaram, pediram pra trocar os pares da comparação, outros falaram de Neymar, Zico, Di Stéfano, Puskas, Leônidas e até Biro Biro! La Bourdonnais foi comparado a Garrincha, o injustiçado, num dos poucos momentos de concordância.

Alguém perguntou, malicioso: “Se Kasparov é Maradona, qual foi o gol de mão?”. Lembrei, então, do episódio contra Judit Polgar, quando ele soltou a peça e depois voltou seu lance; mas fez tudo isso com sua própria mão, jamais a de Deus!

Assim, do nada, percebi que se quiser, posso passar horas falando de semelhanças entre os jogos: perder um pênalti é como não ver um mate em um, o impedimento é semelhante a quando uma peça está cravada, a grande área é a ala do rei, os peões protegendo o rei no roque são a barreira das faltas etc.

São tantas semelhanças que talvez até fosse pertinente, numa licença poética, alterar a frase célebre de Tarrasch: o xadrez, como o amor, como a música, ( como o futebol) tem o poder de fazer os homens felizes!

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(*) Uma primeira versão deste texto apareceu em primeira mão no blog parceiro Reino de Caíssa

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