quarta-feira, 13 de setembro de 2017

Um ofício nada sutil





Nas ruas de uma qualquer grande cidade, atrás de um ponto de ônibus, encostado num balcão de bar, sentado esperando um café, há sempre um narrador onisciente no exercício de seu ofício tão indispensável à literatura, pronto a presenciar as maravilhas e desgraças da natureza humana. Observa os passantes, os que ficam, os que não sabem a próxima coisa a fazer…

Alheio, ou aparentemente alheio, um homem rola no chão.

Para todos os efeitos, e sob qualquer critério, trata-se de homem adulto, como atestam os muitos danos da idade, aliados aos de nascença, espalhados pelo corpo.

Cabeça, pescoço e braços normais contrastam com um tronco de dimensões reduzidas, no qual estranhos e inesperados volumes no peito e costas oprimem a surrada camisa. As pernas são tristes arremedos atrofiados, sem vida, incapazes de esticar, de sustentar o corpo ereto.

Faz sons de criança, ou de gato. Gira sobre si mesmo, apoiado de lado ou sobre as costas. Seu faz de conta infantil não resiste à singela observação de que faz aquilo pelo sustento: ter a consciência da necessidade do dinheiro para sobreviver é atributo adulto, exclusivo, ainda quando visto numa criança. Além dessa falha fundamental, só se antevê sua verdadeira compreensão do mundo quando uma nota maior é jogada em sua caixa de esmoler. Mas apenas um olhar atento, como o do narrador onisciente, pode atinar para a nuance, o entendimento do valor do dinheiro, um conceito nada primitivo, completamente incompatível com o personagem encenado a sol e chuva, dia após dia, como duro ganha-pão.

O narrador pensava ter esgotado aquela observação, e seus olhos buscaram outra imagem. Aproximava-se um homem de andar vigoroso, de meia idade, bem vestido, camisa abotoada, sapatos de couro. Cabelos que tinha sido completamente louros, ostentavam agora uma mescla prateada que lhe conferiam um ar distinto. A pele gasta e avermelhada no rosto e pescoço indicava que, o que quer que aquele homem tivesse na vida, era fruto de árduo trabalho, de sol a sol. Segurava um cigarro com sua única mão. Quando estava bem próximo ao homem que girava e grunhia no solo, ele colocou o cigarro na boca, enfiou a mão num bolso da calça e retirou uma nota de dez reais, que depositou, sem se deter, na caixa humanitária. Depois, continuou seu caminho, a mão procurou a boca para voltar a segurar o cigarro. Seguiu sua marcha resoluto até sumir na indefinição da multidão como se seu gesto, tão rápido e discreto, não ocupasse mais espaço algum de sua consciência.

Durante o tempo em que o narrador onisciente ficou observando, talvez dez, quinze minutos, poucos passantes pareciam notar o esmoler. A caixinha mal recebera quatro ou cinco moedas, algumas de um real, algumas de vinte e cinco centavos ou menos. O homem no chão mal alterava seu deprimente número ao ouvir o tilintar das pratas, mas a ausência de som ao cair a nota graúda (pelo menos para ele era graúda) chamou sua atenção. Ele olhou a caixa e recolheu rápido a nota para dentro de sua camisa, local seguro.

O homem com um só braço, que aparentemente levara sua vida como se ter dois fosse uma extravagância desnecessária, talvez tenha visto na triste cena do esmoler que rastejava uma espécie de futuro paralelo que soube evitar, ou simplesmente compreendia melhor que os outros a dificuldade daquela situação extrema. A verdade é que tão pouca informação ele deu, em seu passo ligeiro, em sua generosidade rápida, que a razão de seu ato permanecerá um mistério até o dia do juízo.


O narrador verificou os bolsos, tirou uma nota sem olhar o valor, mas deteve-se. Não ficava bem um narrador onisciente tomar parte no enredo, alterar os fatos. Recuou. Sentiu-se como o homem no chão, estava ali, mas era como se não estivesse. Não fosse outro narrador onisciente que, mais atrás, testemunhava tudo, aqueles fugazes momentos jamais seriam escritos, permaneceriam ocultos, como os motivos do homem que iluminou a tarde com seus passos rápidos e um braço só.


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