segunda-feira, 24 de abril de 2017

O urgente x O importante





O jogo de xadrez pode ser visto como um laboratório da vida, uma vida em miniatura. É um ambiente controlado no qual, não raro, são postas situações que encontram perfeita analogia com problemas da vivência humana.

Uma das questões amiúde enfrentadas por enxadristas (assim como outras formas de vida humana) é decidir entre fazer o que é urgente ou o que é importante. Como o jogo tem um conjunto claro, simples e finito de regras, o impacto das decisões é visto com muito mais facilidade e rapidez que nas situações da vida real.

Há alguns dias, vi claramente o problema do ‘urgente x importante’ numa partida do recente Campeonato Feminino de Xadrez dos EUA na qual se enfrentaram Apurva Virkud (com peças brancas) e Sabina Foisor (com preças pretas), ambas mestras de destacada força.

Nessa partida, ficou evidente o pobre papel exercido pela Dama após o 16° lance das brancas, que fez este exército ficar na defensiva o restante da partida, sempre priorizando o urgente sem jamais conseguir fazer o importante: recolocar a Dama (a peça mais poderosa do exército) em uma posição mais favorável.

Virkud x Foisor, St Louis 2017 (posição após 16. Da5)

No diagrama acima, mesmo alguém sem conhecimento do jogo perceberá quão distante se encontra a Dama branca do centro do tabuleiro e da ala do rei (metade direita do tabuleiro), que é onde se desenvolve o ataque das peças pretas.

Analisando a partida com a ajuda dos fortes aplicativos (ou engines, como são amplamente chamadas) disponíveis em nossos smartphones, verificamos que a posição das brancas é muito frágil devido ao forte centro móvel de peões pretos, além da superior mobilidade de cada uma das peças pretas em comparação com suas equivalentes do bando contrário.

As brancas não aproveitaram as duas únicas chances que surgiram para recolocar sua Dama em jogo (o que, apesar de não ser a opção preferida pela fria análise da máquina, faria todo o sentido para um jogador de carne e osso): imediatamente no 17° lance, ou pouco depois, no 21°, nas demais ocasiões, a urgência se impôs de forma muito aguda.

Virkud x Foisor, St Louis 2017 (posição após 26. Tg1)

Ao observarmos, acima, a posição após o 26° movimento branco, perceberemos claramente a falta que fez a Dama branca, agora bloqueada pelo cavalo e ainda no mesmo local, enquanto as pretas têm a opção de um belo desfecho com um ataque de mate (fica como desafio para os enxadristas - pretas jogam e dão xeque-mate em 9 lances).

A partida me deixou pensativo. Não em termos de xadrez, mas em termos de opções de vida. A princípio, seria melhor não se colocar numa situação na qual as urgências nos impeçam de fazer o que é importante, mas, uma vez que o cenário fica mais complicado, precisamos ficar atentos para qualquer chance de recolocar as prioridades em ordem.

Como a partida nos ensinou, fazer somente o urgente não livrou o exército branco da derrota. É preciso lembrar que, mesmo que não traga um retorno rápido, ou sequer mude o desfecho final, fazer o que é importante nos coloca em posição de lutar melhor, mantendo a honra (aliás, um atributo jamais urgente, mas sempre importante).
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Um comentário:

Kasé disse...

Magnífico, caro Rewbênio! Na vida, assim como no xadrez, urge sabermos o que é importante realmente ;)