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sexta-feira, 14 de abril de 2017

O engenheiro e a borboleta




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Ainda menino, ele se interessou pela concisão dos números, pela lógica das operações matemáticas, pela simetria. Ao mesmo tempo, era fascinado pelo movimento de peças articuladas, de elementos que se encaixavam e formavam um objeto maior, com funcionalidades diversas e maravilhosas.

A vida no interior facilitava a observação da natureza, o convívio com plantas e animais. Começou a criar forte interesse num tipo de inseto comum de se ver, as borboletas. Talvez por serem pequenas “máquinas” voadoras com perfeita simetria, economia de formas, pelas belas padronagens nas asas, um ciclo de vida intrigante, aqueles simples insetos ganharam lugar em sua vida.

Desde que se conhecia por gente, então, ele equilibrava seus dias entre o estudo da matemática, o desenho de engenhocas e sua pesquisa particular sobre os lepidópteros. Esta última parecia ser sua maior paixão.

Por forte influência familiar, resolveu cursar engenharia mecânica, em vez de ciências biológicas; afinal de contas, tinha grande afinidade com a engenharia, e quanto às borboletas… bem, jamais precisaria afastar-se de sua paixão por elas.

Ele cursou a universidade, formando-se com louvor, estagiando numa grande empresa que fabricava máquinas enormes. Durante o curso, leu o que podia sobre borboletas, participava de expedições para caçá-las e só viajava para cidades que tivessem borboletários.

Nunca se casou. Uma vida era muito curta para a engenharia e, especialmente, para as borboletas.

Seu espírito minucioso, detalhista, e seu amor pela simplicidade e eficiência, fizeram dele um grande engenheiro. Projetou e liderou a construção de máquinas maravilhosas. Foi pioneiro na criação de máquinas que constroem outras máquinas. O fascínio daquele ofício era o de combinar peças simples até formar artefatos complexos. Faltasse somente um daqueles elementos básicos, uma engrenagem, um pino, e a máquina não funcionaria.

Tinha hábitos eficientes, imutáveis. Era o primeiro a chegar à fábrica, mas não ficava um minuto sequer além do horário. Dentro dos galpões, onde o ritmado som metálico mantinham sua ativa mente concentrada na produção, ele só pensava em suas máquinas. Porém, ao colocar o pé na calçada, ávido pelas poucas horas de luz que ainda havia, o maravilhoso mundo entomológico tomava conta de suas sinapses, de seus sentidos. No bolso do casaco, sempre trazia uma caderneta para suas anotações sobre as queridas borboletas.

É verdade que, com o passar dos anos, seu estudo no campo dos insetos foi ficando muito mais teórico que prático, na grande cidade não tinha muita chance de vê-las, era difícil afastar-se muitos dias da fábrica (que não parava jamais), tamanha era a importância de sua presença para o bom andamento da produção.

Liderava a linha de montagem como se fosse um experimento biológico, que não podia ser exposto à contaminação. Tudo precisava estar limpo, regulado, em ordem. Ele pensou tudo para que, aos poucos, não precisasse haver mais ninguém ali, só ele e suas máquinas. Cada equipamento enchia o engenheiro de orgulho, pois eram todos fruto do seu pensamento. O mais simples e grosseiro deles, porém, era o mais importante: a gigantesca prensa, onde o metal era moldado conforme seus minuciosos cálculos. Por capricho, havia sido projetada como duas asas de borboleta, que se fecham uma sobre a outra. Seu movimento era lento até meio curso, depois se fechava rápido, aplicando uma força tremenda. Ela era toda pintada de azul.

Numa sexta-feira, no final do dia, o engenheiro apanhou seu casaco e foi andando pela fábrica. Verificou os ajustes para a produção noturna, foi até próximo da grande prensa que trabalhava com precisão. Vestiu o casaco e colocou a mão dentro do bolso, a procura de sua caderneta. Ao retirar a mão, não percebeu a queda dum parafuso, que ele havia substituído duma máquina e havia esquecido naquele bolso.

No caminho para casa, folheando a caderneta, foi recordando os desenhos e anotações sobre uma espécie da qual gostava muito, uma borboleta azul, que ele só conhecia por livros, já que não era comum na sua região e não tivera a sorte de ver em todas as suas viagens. Talvez, pensou, já fosse tempo de se aposentar das máquinas e seguir sua velha paixão integralmente.

Naquela noite, teve um sonho. Um menino corria por um campo relvado, com uma puçá nas mãos, buscava capturar uma borboleta azul que se afastava dele somente o suficiente para não desvanecer seu ímpeto. Quando a rede da puçá tocou a asa do inseto, ele despertou. Já era dia claro, e ele resolveu levantar e ver como estava a produção.

Ao se encaminhar para a fábrica, porém, o engenheiro pensava no sonho que havia tido. Seu possível significado ainda o intrigava, e ele não notou, atrás de si, uma nuvem de borboletas que se aproximava, um panapaná.

O som das minúsculas asas em movimento trouxe o engenheiro de volta à realidade quando a nuvem já passava por ele. Uma multidão de borboletas alaranjadas, no meio delas, o engenheiro viu uma única azul.

Ele se apressou, acompanhando com dificuldade o dinâmico movimento dos insetos, mas percebeu quando a borboleta azul entrou por um dos janelões da fábrica.

Ainda mais apressado, ele entrou no lugar sem sequer se dar conta do firme som do maquinário, cíclico como um relógio. Ao fundo, tal como um bumbo, a grande prensa marcava a cadência. Ele só via a borboleta que se arriscava entre engrenagens, hastes, compensadores, e voava em direção à prensa.

Correu, na tentativa de que seu pesado corpo alcançasse o outro, levíssimo, que voava. A borboleta pousou sobre a prensa, que iniciava seu processo de fechamento. O engenheiro resfolegava na tentativa de alcançar não mais a borboleta, mas o botão de emergência, para parar as máquinas. A prensa fechava lentamente, a borboleta imóvel, como se aguardasse por ele. A poucos passos, já quase tocando o botão, o engenheiro escorregou, ao pisar o parafuso, que não devia estar ali.

Durante a queda, a mão do engenheiro se afastou do botão, enquanto seu corpo foi atraído para a borboleta, como sua alma havia sido atraída a vida toda. Quando ele caiu sobre a prensa, a borboleta voou.

Pouco antes do impacto das grandes asas metálicas, os olhos ainda seguindo o voo do pequeno inseto, ele atentou de repente ao som da produção que fechava mais um ciclo, a borboleta saia pelo janelão, ele ainda pensou: o sonho agora faz todo o sentido.

2 comentários:

juliana fajardo disse...

Parabéns pelo excelente texto! A riqueza de detalhes leva-nos a imaginar o cenário,o personagem e o seu encanto pelas borboletas!

Natalia Comaru disse...

Nem sei precisar quantas vezes desejei e persegui obstinadamente a liberdade de outras vidas e terminei esmagada pela prensa da minha realidade...Quem nunca? parabéns, Rewbenio, por mais um belo texto.