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sábado, 28 de janeiro de 2017

Reconhecimento Paterno no Xadrez




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Muito tempo antes da abundância de informação que a internet trouxe, os enxadristas amadores viviam uma vida mista de pesquisadores, arqueólogos e improvisadores buscando conhecer um pouco das ideias dos mestres, uma xerox de livro raro, uma revista com as partidas mais recentes. O conhecimento de outras línguas era ainda mais limitado, e só restava confiar nas traduções em espanhol de obras famosas. Livros em inglês até apareciam, mas não se podia arriscar entender errado alguma frase dos mestres.

Algumas vezes, aparecia oportunidade para assistirem a palestras de jogadores mais fortes. Em tais palestras, não raro, saiam sabendo menos do que quando entraram. Uma vez, por exemplo, chegou na cidade um jogador de fora, pródigo em contar suas histórias e forte enxadrista. Venceu um torneio aberto e, de pronto, se tornou admirado pelos locais.

- O senhor por acaso sabe inglês? - perguntou um dos jogadores que estava ouvindo as histórias do forasteiro.
- Sim, claro, qual bom jogador não sabe!? - blefou.

O rosto do homem se iluminou e ele estendeu ao forasteiro um maço de papel com a xerox dum artigo de xadrez em inglês intitulado “Pattern Recognition in Chess”. Um texto longo recheado de diagramas com posições variadas de partidas famosas. O homem gelou.

- O senhor por acaso não aceitaria nos fazer uma palestra com o conteúdo deste artigo? Obviamente que será pago pelo serviço.

A alusão ao pagamento interessou mais ao jogador que os diagramas do artigo, e ele se comprometeu a ficar mais uns dias na cidade, ao final dos quais faria uma apresentação sobre o material que tinha nas mãos.

Foi arranjada hospedagem e alimentação para o novo mestre, que se dedicou a entender o que havia naquele texto.

O parco inglês do forasteiro, fortemente baseado na semelhança de palavas com o português e apoiado num resumido vocabulário, lhe permitiu criar uma interpretação do artigo. Muito ajudou conhecer o nome dos jogadores que ali apareciam Tchingorin, Capablanca, Bronstein, Fischer e Kasparov. Sobre a vida deles ele conhecia bastante coisa!

No dia marcado, um sábado, no auditório duma escola municipal (um dos aficionados enxadristas da cidade era o diretor da escola) arranjou-se um tabuleiro de demonstração ao redor do qual foram arrumadas carteiras escolares, com o providencial apoio para anotações dos interessados jogadores. A fim de pagar pelo serviço, a cada um foi cobrado um valor de R$ 10,00.

O palestrante chegou no horário, tomou um gole de água, encarou a audiência e começou explicando que o artigo falava da interessante e importante questão do ‘Reconhecimento Paterno no Xadrez’.

Os presentes se surpreenderam, será que era mesmo um tema relevante para aumentar a qualidade do jogo deles?

‘Vários jogadores ao longo da história sofreram justamente com a falta do reconhecimento paterno, ou com um reconhecimento deficiente. Vejam o caso de Mikhail Tchingorin...’. Foi falando enquanto montava no mural a posição do primeiro diagrama do artigo. ‘Como sabem, Tchingorin perdeu os pais muito jovem e foi criado num orfanato na  Rússia no final do século XIX. Apesar disso, foi capaz de ser um dos melhores do mundo em sua época, inclusive foi desafiante duas vezes de Steinitz pelo título mundial. Na posição aqui do diagrama, infelizmente, se vê a falta que lhe fez um pai. No momento crucial, teve insegurança e se permitiu levar mate quando vencia, ao retirar a única peça que defendia seu rei.’.

Os presentes anotaram tudo e analisaram um pouco quais seriam as opções de Tchingorin para vencer aquela partida.

‘Vejam agora o exemplo de José Raúl Capablanca, campeão mundial cubano, aprendeu xadrez olhando o pai jogar e recebeu deste todo o apoio. Com pouco mais de dez anos de idade não havia em toda a ilha de Cuba nenhum adversário capaz de vencê-lo.’ Uma posição de Capablanca foi montada no tabuleiro, uma na qual se vencia com uma elegante dança de cavalos, muito instrutiva para os presentes.

‘Outro caso de carência de reconhecimento paterno pode ser visto na história de David Bronstein, um dos gênios do xadrez soviético. Bronstein não era bem visto pelo regime socialista da URSS, seu pai foi considerado um “inimigo do povo” e ficou preso por vários anos. Isso foi crucial na disputa com Botvinnik em 1951, quando ele liderava mas deixou a emoção pela situação de seu pai (uma vitória poderia significar complicar sua vida novamente) dominar sua mente e ele perdeu uma partida que poderia facilmente ter empatado.’ Foi montada novamente uma posição no mural. Nela Bronstein perdeu um final de par de cavalos contra par de bispos.

‘Caso curioso o de Bobby Fischer. Ele nunca soube quem era seu pai, teve péssimo relacionamento com sua mãe, mas mesmo assim alcançou o topo no xadrez em 1972. Foi campeão mundial dando fim à hegemonia soviética que durava mais de vinte anos. Apesar de, aparentemente, não ter feito falta para seu jogo de xadrez, a ausência de reconhecimento paterno foi danosa em outros campos de sua vida. Ele não defendeu seu título frente a Karpov em 1975. Aos 29 anos de idade, largou o jogo e até hoje não se sabe direito por onde ele anda. Dizem que perdeu o juízo!’. E passaram a analisar posições de partidas do grande campeão norte americano.

‘Finalmente, temos a história do grande Garry Kasparov. Como sabem, Kasparov perdeu seu pai quando tinha somente 7 anos de idade, mas ele teve em sua mãe um grande escudo, ela devotou toda energia ao menino e ao xadrez dele! O resultado, já sabemos, ele é o campeão mundial e certamente um dos melhores jogadores da história do nosso jogo. Não teve reconhecimento paterno, mas o reconhecimento materno foi abundante!’. A palestra foi concluída com diversas posições famosas de partidas de Kasparov.

Ao final, houve aplausos, animadas conversas, o palestrante foi convidado almoçar na casa do diretor da escola antes de pegar o ônibus na rodoviária. Durante o almoço, o filho do diretor, o melhor estudante da cidade, timidamente perguntou ao novo ídolo de seu pai:

- Mestre, o título do artigo não seria ‘Reconhecimento de Padrões no Xadrez’?

O forasteiro teve cuidado para não engasgar com a farofa e tomou um gole de suco antes de responder.

- Jovem, é preciso sempre ter cuidado com essas línguas estrangeiras, elas são muito traiçoeiras, principalmente os falsos cognatos!

Para a tristeza dos enxadristas da cidade, aquele grande palestrante nunca mais deu as caras por ali.

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3 comentários:

juliana fajardo disse...

Parabéns pelo texto! Até os falsos cognatos ensinam alguma coisa! :)

Carlos Henrique Lopes Pinto disse...

Gostaria de saber o nome deste genial palestrante! eh eh eh! ótima anedota de xadrez. Numa antologia de anedotas essa disputaria o primeiro lugar com certeza!!

Luiz Fábio Alves Jales disse...

Não se trata de uma anedota, e sim de um conto, muito bem escrito, por sinal. Parabéns ao autor pela pequena obra-prima!