domingo, 22 de janeiro de 2017

A menina e o Ogro




Ilustração de Omar Rayyan
Naquela noite ela mal dormiu, ansiosa com o importante acontecimento do dia seguinte: pela primeira vez enfrentaria o campeão mundial num torneio!

Crescera numa casa repleta de peças, tabuleiros e livros de xadrez, todos em casa jogavam, e ela era a caçula da família. Suas irmãs também aprenderam desde novinhas, e ela não se lembra exatamente em que momento aquilo se tornou sério para ela; quando se percebeu como gente já estava derrotando garotos e garotas bem mais velhos que não escondiam o espanto com as jogadas afiadas na menina.

Apesar de ser a menor em casa, logo ultrapassou as irmãs, não somente pelo talento, mas pelo aperfeiçoamento do método desenvolvido pelo seu pai, que desejava demonstrar que um gênio pode ser criado, sem depender de dádivas inatas.

Ela se acostumou a ser a única menina no meio de homens de todas as idades, desde juvenis a veteranos. Com o tempo, eles passaram a olhar para ela não como uma mulher, uma menina, mas simplesmente um jogador como eles, só que terrivelmente forte. Tinha somente quinze anos de idade quando conquistou o título de Grande Mestre Internacional. Agora, aos dezessete anos, perseguia a meta que o pai incutira em sua mente: alcançar o degrau mais alto, ser campeã mundial geral, entre homens e mulheres!

Tudo aquilo passou como um raio em sua mente no momento em que cumprimentou o campeão no início da partida.

Ele era o mais temido profissional do jogo, toda a energia de seu corpo era concentrada para o melhor desempenho de suas peças sobre o tabuleiro. Muitas vezes, a mera presença dele perto de si era suficiente para desestabilizar os melhores jogadores. Uma de suas armas, além dos fortes lances, era o olhar que lançava sobre os adversários em momentos específicos do jogo, como a degustar o efeito de suas jogadas sobre a mente deles. Também era dado a caretas, razão pela qual, entre os jogadores, ele ser conhecido como ‘O Ogro’.

Ela conhecia bem o campeão, na verdade ela era sua fã, estudara todos os seus jogos, sabia de suas idiossincrasias no tabuleiro e fora dele, por isso os olhares e caretas não a perturbavam. Ela estava preocupada apenas em compreender e refutar as jogadas que ele fazia. Tinha as peças brancas e iniciou a partida avançado seu peão do rei duas casas, sua abertura favorita.

O campeão também empregou sua defesa preferida, e a partida seguiu equilibrada. Após pouco mais de vinte jogadas, a menina sentia a dificuldade de enfrentar o campeão do mundo, não somente pelos olhares e caretas, mas por suas ideias que eram mais profundas que as ideias dos outros grandes mestres, a vantagem de jogar com as brancas havia sido dissipada e agora o adversário é que tinha vantagem.

No trigésimo sexto lance, ambos já com poucos minutos de tempo no relógio, o campeão pega seu cavalo, desloca-o em direção à quarta casa do bispo da dama, e a menina gela: aquilo seria um erro! Ele pousa o cavalo sobre a casa escolhida, segurando as laterais da peça com o indicador e o polegar direitos, libera a pressão dos dedos lentamente até que o cavalo fica livre sobre o tabuleiro, então, subitamente, ele volta a pressionar a peça entre os dedos, retorna-a para a casa de origem e volta a pensar!

“O que ele está fazendo? A peça foi solta no tabuleiro, não foi?”. A menina olha a seu redor, o árbitro não estava próximo da mesa, não havia mais ninguém atento à partida naquele exato instante. Sequer sua mãe ou sua irmã, que estavam na plateia, pareciam ter notado nada de anormal. O que fazer? Ela teria mesmo visto aquilo? Se reclamasse ao árbitro sem provas, ela seria penalizada e poderia perder a partida.

Nesse meio tempo, o campeão voltou a tocar no mesmo cavalo e moveu a peça para a primeira casa do bispo do rei, como se não houvesse nada fora do ordinário nesta ação.

Além da difícil situação no tabuleiro e do tempo se esgotando no relógio, a segurança do campeão aumentou a confusão mental da menina, e ela simplesmente fez sua jogada, anulando qualquer chance de protestar pela falta do adversário.

A partida continuou por mais dez lances, até que a menina abandonou, sem esperanças de salvar seu rei do mate.

Houve um frio e constrangido cumprimento de mãos, e a menina foi se afastando da mesa de jogo. Alguns passos depois, uma ideia tardia lhe trouxe a certeza que faltara na hora decisiva: após a trigésima sexta jogada, o campeão não voltou a encarar a menina sequer uma vez...

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10 comentários:

Paulo Apolinário disse...

Muito bom!!!

Mini Transmissor FM disse...

Tal passo apenas para quebrar-lhe a concentração?

juliana fajardo disse...

Fantástico! Especialmente por nos fazer pensar mesmo após as reticências...
Parabéns!

Regina Rodrigues Bonfim disse...

Kasparov, o mal caráter.

Ozymandias Realista disse...

Gary Kasparov não curtiu esse post...

Marcio Godinho disse...

História mais sem pé nem cabeça...
Ou foi eu que não entendi nada??

Jeferson Albuquerque disse...

Judith Polgar x Garry Kasparov na minha opinião a melhor jogadora de xadrez de todos os tempos contra o segundo melhor jogador de xadrez de todos os tempos.

Ozymandias Realista disse...

O segundo? E quem seria o primeiro? Fischer? Carlsen? Karpov?

Marcelo Basilio disse...

Fischer!!

kabbal disse...

A segunda opção