terça-feira, 15 de novembro de 2016

No tempo da Lettera 22





Este texto foi escrito numa máquina de escrever portátil, uma Olivetti Leterra 22. Foi presente de um amigo que, ao saber da minha vontade de ser escritor, apressou-se em dar melhor uso à relíquia que mantinha em casa sem serventia.

O simbolismo do presente vinha ao encontro de um comentário que fiz sobre o Finding Forrester. O filme conta a história de um escritor recluso que resolve aconselhar um jovem aspirante a escritor. Um dos artifícios é o uso das antiquadas máquinas mecânicas, muito úteis para dar ritmo à escrita, de forma que as palavras são transferidas da mente ao papel por mera necessidade rítmica.

Apesar de não ser comparável à complexidade de um computador, é impressionante ver em funcionamento os diversos mecanismos da Lettera. É uma máquina velha, portanto já tem seus vícios, como o acento agudo que não volta após ser solicitado e demanda uma intervenção manual (mais manual que de costume).A complexidade destas máquinas é visível a todos, ainda mais na minha que pede a retirada da cobertura para ter acesso às hastes. Já a complexa "mecânica" dos computadores fica escondida, podemos apenas imaginar.

O ritmo realmente ajuda, não se quer parar de ouvir os golpes das hastes no papel, dão a sensação de progresso, de evolução. O suor brota da testa, sinal que o esforço não é só mental; isso pode ser mais um atrativo para as letras, nesta época em que o jargão “menos é mais” só é aceito quando o assunto é peso corporal.

Conforme a tinta vai clareando, novamente a mão larga as teclas, desta vez para mudar a posição da fita bicolor. Outra preocupação que jamais ocorre ao escritor moderno, que no máximo pensará depois se deve imprimir o texto e se há tinta na impressora.

A tarefa de encher uma página A4 também fica mais árdua, pois não se alteram a fonte nem o tamanho dela, nem convém alterar o espaçamento padrão entre as linhas dado pela charmosa alavanca do lado esquerdo, sempre solicitada após o “trimmm”.

Nos tempos atuais, porém, é preciso achar um meio de portar o texto finalizado desta folha de papel única e inédita para um arquivo digital. Enquanto bato as teclas, penso em duas formas, uma rápida e preguiçosa (o scanner) e outra lenta, porém edificante (redigitar em um editor de texto); esta última já será uma ótima oportunidade de revisar o escrito, possivelmente após uma pausa para uma xícara de café.

Fico feliz quando encontro ocasião de usar minha Lettera, é uma forma voltar ao passado, de reconhecer o valor do que foi feito por aqueles que vieram antes de nós, cheios de engenhosidade e carinho pelo ofício. Só assim para descobrir que muitas das obras que nos foram legadas foram fruto não somente de talento e inspiração, também custaram muito suor (acabo de descobrir que minha máquina de escrever não tem ponto de exclamação).


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