quinta-feira, 27 de outubro de 2016

O mal de sempre pensar





Pouco foi falado, além das já conhecidas linhas do Gênesis, sobre a curiosa criação do homem e da desobediência primordial que nos tornou a vida tão árdua desde então.

Conta-se que o Criador, irado por ter visto sua única proibição ser ignorada por suas criaturas, lançou sobre eles (e seus sucessores) incontáveis maldições, sendo a mais famosa delas a necessidade de trabalhar de sol a sol pelo pão. Mas o próprio narrador do livro dos inícios cala ao omitir aquela que talvez tenha sido a pior das maldições oriundas do pecado original: a que obrigou homem e mulher, enquanto vida eles tiverem, a pensar sem descanso!

A vida no Éden era realmente paradisíaca. O Primeiro e a Primeira faziam o que bem queriam, comiam, dormiam e tornavam a comer, desfrutavam do convívio regular com o Criador paternal e com alguns anjos que por apareciam e com eles compartilhavam o privilégio de poder suspender a atividade mental, ainda que em plena vigília! Um conceito difícil de entender nos dias de hoje, obviamente o pensar jamais levará ao não pensar.

Porém, como o apetite dos jovens fosse implacável, e todas as frutas do paraíso terrestre já se tornassem enjoativas, a mulher começou a rodear a árvore central, aquela mesma cujos vistosos frutos eram proibidos.

A serpente, vil por natureza, estava invejosa da boa vida que levavam os preferidos do Criador (quem diria poder suspender o pensamento!?, era sua maior indignação). Somente a serpente sabia que, após comerem dos frutos proibidos, os humanos perderiam as muitas vantagens que tinham. Ao ver o olhar da mulher para a árvore, a serpente tratou de confundir‐lhe o juízo, e ela acabou por provar do fruto.

A mulher não queria pecar sozinha e logo ofereceu um pedaço ao esposo, que se sabia de qual fruto se tratava, nem o narrador do livro dos inícios soube dizer.

Sabe-se apenas que ambos envergonharam-se de estarem nus, numa época em que não havia academias de ginástica, musculação, nem treinadores personalizados, e correram atrás de folhas para se cobrir.

Naquela noite não dormiram. Não por culpa ou pela coceira que as novas vestes causavam, mas porque não conseguiam controlar a enxurrada de pensamentos que teimavam em vir sem sossego.

Na manhã seguinte, o Criador estranhou, mais do que os saiotes verdejantes, as olheiras profundas que suas criaturas humanas apresentavam, e passou a ler seus pensamentos, percebendo que não paravam nem um segundo!

- Comeste da Árvore!?

- Sim, mas foi ela quem me deu...

- Sim, mas foi a serpente que me convenceu ...

O restante já sabemos, só não conseguimos parar de pensar sobre isso!

3 comentários:

Mini Transmissor FM disse...

Será por isso que dizem ser a ignorância uma bênção?

Luiz disse...

Show de texto! Quantas noites mal ou não dormidas por conta do ato de pensar! Quantos problemas resolvidos pelo pensamento... Parece que tudo nessa vida nos reserva sempre dois lados!

fabiofff disse...

Ela(ignorância) deriva do Latim IGNORANTIA, de IGNORARE, “não saber”, formada por IN-, “não”, mais GNARUS, “sabedor, que domina um assunto”, relacionado a GNOSCERE, “conhecer, saber”. Ctrl C ctrl v