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sábado, 27 de agosto de 2016

Cooperação e Competição – uma receita vencedora!





Mansell dá carona a Senna após GP em 1991 (Google)

Há alguns anos, enquanto preparava uma apresentação para uma plateia de formação bastante heterogênea, fui desafiado com a tarefa de explicar o funcionamento de um tipo de rede neural artificial (RNA) chamada SOM, acrônimo em inglês para Self Organizing Maps. Trazer para a linguagem coloquial o funcionamento de algoritmos, números e equações, nem sempre é uma tarefa simples. Então fiquei a procurar uma analogia.

O principal diferencial da rede SOM é que, apesar de ser um tipo de RNA competitiva (na qual os neurônios da rede competem entre si para ser ativados por um dado padrão de entrada, ou estímulo), ela alia competição com algo não muito comum em um contexto competitivo: cooperação! Quando, num dado ciclo, um neurônio vence a competição, ele divide sua “recompensa” com seus vizinhos mais próximos, assim, no próximo ciclo, eles estarão em melhor situação para disputar a vitória. Esta simples característica torna o resultado global da rede SOM muito melhor que o de todas as demais redes competitivas comuns.

Voltando à minha apresentação, como eu poderia explicar isso sem ser tão técnico, ou até mesmo chato?

Fiquei pensando em que outra situação da “vida real” poderia haver uma tal simbiose de cooperação e competição, mas nada vinha à mente… a não ser, como fui esquecer? O Xadrez Soviético!

O Xadrez na União Soviética (URSS) era a analogia perfeita para a rede SOM, e não sei se Kohonen estava a par disso quando desenvolveu seu algoritmo no começo da década de 1980.

Na URSS, o Xadrez era levado a sério (talvez até demais). Era algo que o governo usava como prova da superioridade do homem soviético, de sua mente superior. Grandes Mestres, profissionais mantidos pelo regime, eram vistos como cidadãos especiais no socialismo soviético, e a eles eram até mesmo permitido certos privilégios e regalias.

No entanto, a relativa boa vida de um Grande Mestre na URSS era sujeita a algumas condições, dentre outras, além de ser um jogador primoroso, devia ser obediente e fiel ao regime!

Obviamente, esses dois fatores não seriam suficientes para explicar a hegemonia soviética no cenário enxadrístico internacional por quase 50 anos, dos anos 1940 aos anos 1990 (período brevemente interrompido pela meteórica vitória do norte americano Fischer contra o soviético Spassky em 1972). O grande segredo do sucesso da Escola Soviética de Xadrez era a cooperação!

Dentro das fronteiras da URSS, os Grandes Mestres podiam manter ferrenhas rivalidades, até mesmo inimizades, porém, em eventos no exterior, ou mesmo em eventos na URSS em que participassem estrangeiros, eles eram obrigados a compartilhar conhecimento em sessões de treinamento em grupo, deviam ajudar uns aos outros na preparação de aberturas antes das partidas e analisavam em grupo as posições adiadas.

Desta forma, dentre alguns dos melhores jogadores do planeta na época, incluídos aí campeões do Mundo, não era permitido haver grandes segredos; um nova jogada descoberta, uma melhoria numa linha de jogo já conhecida, deveria ser compartilhada com os demais mestres o quanto antes. Era uma política de Estado!

Não é, portanto, de se estranhar que tantas disputas de título mundial de Xadrez após 1948 tenham contado exclusivamente com jogadores soviéticos (única exceção foi Spassky - Fischer em 1972).

Mesmo após a dissolução da URSS, os Grandes Mestres de países do antigo bloco soviético ainda mantiveram grande predominância no Xadrez mundial. Para se ter uma ideia, em apenas três ocasiões o confronto pelo título mundial não teve nenhum dos jogadores com origem em países herdeiros da escola soviética: Anand (Índia)Topalov (Bulgaria) em 2010, Anand – Carlsen (Noruega) em 2013 e Carlsen – Anand em 2014.

Funcionou! As pessoas entenderam o conceito, e os itens restantes da apresentação ficaram muito mais fáceis de explicar. Competição e cooperação deveriam ser vistas juntas com mais frequência, a julgar pelo sucesso mais recente da rede SOM e aquele mais antigo do xadrez soviético. Assim, certamente seria muito mais simples encontrar analogias para minhas próximas palestras!

8 comentários:

Paulo Dantas disse...

Rewbas, já leu o livro "A Evolução da Cooperação", do Robert Axelrod? Traz uma série de exemplos de cooperação em ambientes competitivos, na natureza e na sociedade humana, em que a cooperação é a estratégia mais inteligente para todas as partes envolvidas. Recomendo! Abraço!

Rewbenio disse...

grande Dantas! Como é bom ter amigos! Não conhecia o livro, e estava mesmo em busca de mais fontes! Obrigado pela dica! Abração

Ricardo Parente disse...

Não sabia dessa cooperação soviética numa atividade tão solitária quanto o xadrez. Lembrei daquele filme, Uma mente brilhante. A Teoria do Jogos parece levar em conta tb a cooperação. Obrigado pela leitura! Abrcs

Rewbenio disse...

Ricardo, era algo muito bem definido na época. Um estudo interessante foi apresentado aqui: http://lancesquaseinocentes.blogspot.com.br/2011/04/xadrez-e-ciencia-sovieticos-agiam-em.html

Abraço

Sanderson disse...

Rew,
Acredito que essa questão da cooperação é ainda mais desafiadora no contexto do xadrez, uma vez que são extremamente treinados na indução retroativa (incapazes, como te falei, de avançar além do primeiro passo em um simples jogo da centopeia). Mas em outros esportes isso sempre se verifica... Só é possível encontrar um N. 1 de verdade, quando há uma relação de competição/cooperação com um N. 2 a altura do primeiro, sob todos os aspectos...

Graziela Gomes disse...

Rewbenio, muito interessante. Tenho algum material a respeito do tema competição e cooperação em Administração Pública.

Anibal disse...

Excelente! Um banho de cultura da melhor qualidade, Rewbênio! Parabéns!!!

Rewbenio disse...

Caros,

Obrigado pelos comentários. Baseado na indicação do Paulo Dantas, achei esse interessante link sobre o tema da cooperação x competição: http://jornalggn.com.br/fora-pauta/sobre-o-livro-a-evolucao-da-cooperacao-de-robert-axelrod

Graziela, pode me mandar esse material ou dicas sobre eles para berufstatig@bol.com.br?

Abraço