sexta-feira, 6 de dezembro de 2013

Será o fim dos livros de Xadrez?





Após a vitória de Magnus Carlsen, o lendário Garry Kasparov escreveu em sua coluna para a Time Magazine que é o triunfo de uma novíssima geração que aprendeu a jogar com computadores, em detrimento da geração de Anand, Kasparov e outros Grandes Mestres que aprenderam o jogo por meio de, palavras do Ogro de Baku, “livros empoeirados”.

Portanto, a realidade do aprendizado do Xadrez, mesmo nos níveis mais elevados, parece não estar em desconformidade com a tendência cada vez maior de se aprender qualquer coisa usando os computadores, deixando de lado os livros, que trazem consigo o fardo (ou fascínio), de precisarem ser lidos e interpretados para começarem a revelar o conhecimento que se busca.

Claro, a modernidade é como o Peão no nosso amado jogo, não dá passos para trás, e talvez o melhor que (nós saudosistas) podemos fazer é torcer para que resistam pelo menos os livros digitais no futuro! Mas talvez nem isso...

No caso dos livros de Xadrez, percebe-se como piorou o cenário. No passado, todos os grandes campeões publicaram livros sobre suas partidas, suas ideias sobre o jogo e sua abordagem nos diferentes tipos de posição. A escola soviética, fortemente ligada ao seu patriarca Botvinnik, vaticinava que os melhores jogadores precisavam publicar análises de suas partidas, forçando-se assim a aperfeiçoar sua técnica, enriquecendo a literatura do jogo por tabela.

Hoje, é cada vez menor o número de jogadores de elite, como alguém da nova geração entre os 10 melhores do mundo, escrevendo livros. Existem autores excelentes que produzem muito na atualidade, como o PhD e GM John Nunn, mas ele é da geração antiga!

O fato é que, com a concorrência dos novos métodos de ensino e aprendizagem do jogo, com a facilidade de ter seu livro “pirateado”, com os baixos valores pagos por uma atividade árdua como a de escrever um bom livro, os Grandes Mestres jovens preferem guardar seus segredos e tratar de vencer torneios para garantir sua renda.

No Brasil, por exemplo, não existe nenhum livro nacional de destaque desde a época do “Xadrez Básico” (que ainda corre o sério risco de ser o melhor livro de Xadrez escrito por um brasileiro).

O reflexo disso tudo pode ser visto aqui mesmo, em nossa cidade (falo especificamente de Natal – RN, mas não deve ser só aqui) os livros de Xadrez estão sumindo das prateleiras. Nas livraria do maior shopping da cidade ainda era possível meses atrás encontrar alguns volumes da série “Meus Predecessores” de Kasparov, a um preço exorbitante de R$ 108,00 (mas isso é outro assunto), só que sumiram.

Numa outra livraria, que tristemente encontra-se reduzindo suas atividades e seu acervo, dentre os mais de 10 mil volumes da enorme loja, pergunto ao vendedor sobre a prateleira de Xadrez (que ousadia), ele me aponta desinteressado uma junto ao chão, na parte de esportes. Espremidos entre a Fórmula 1 e o Futebol, cinco míseros títulos, nenhum deles relevante para alguém que queira se aperfeiçoar no jogo.

É uma tristeza. Os novos mestres escrevem menos e as editoras também não vão deixar de publicar auto-ajuda e livros sobre variados “tons de cinza” para investir em livros sobre Xadrez...

Guardo em casa os livros de Xadrez que fui conseguindo adquirir ao longo dos anos, cada um registra uma fase. Alguns da clássica “Colección Escaques”, que comprei em Fortaleza, na Livraria ao Livro Técnico da Praça do Ferreira, outros que comprei em sebos, ou pela internet. Alguns que foram presentes de amigos queridos, como “ El Arte del Sacrificio en Ajedrez”, ofertado há (susto!) 20 anos pelo amigo e primeiro professor de Xadrez, Ari Maia.

Lamento os dois únicos que emprestei, o meu “Xadrez Básico” de capa vermelha e o “Aberturas e Armadilhas”, jamais devolvidos.

Meus livros são meu pequeno tesouro. Sei que já nem os estudo como planejava ou como deveria, é verdade. Talvez alguns deles tragam análises que os computadores modernos refutem, outros nem sejam tão bons como eu pensei na hora da aquisição, mas todos são valiosos. Ao folheá-los, não raro lembro exatamente do que pensei anos atrás, dos sonhos de maestria ou do fascínio causado por uma jogada ou combinação, ou por uma análise magistral que consegui captar.

Descobri que um livro empoeirado de Xadrez não traz só partidas e análises desatualizadas, com o tempo ele passa a guardar também pedaços da nossa história.




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15 comentários:

Leo Maykell disse...

Desde que surgiram os computadores, muita gente tem falado que os livros vão se acabar. Nunca acreditei nessa ideia. Como tudo no mundo, creio que os livros irão se transformar!

Com os livros de xadrez, acho que não vai ser diferente. As publicações no Brasil são praticamente inexistentes porque isso não dá dinheiro! Escrever um livro já dá muito trabalho, e de xadrez então... Infelizmente, nosso amado jogo é amado por pouquíssimos aqui no Brasil.

No entanto, apareceu o Chessimo, do Gilberto Milos, um "livro digital em roupagem moderna", onde é possível aprender dinamicamente os princípios do jogo. O Chessimo é apenas o começo! Muitos outros "livros" como esse virão por aí, ainda melhores do que ele!

Vitor Hugo Barbosa disse...

Pra mim os livros de xadrez tem um papel muito importante pq foi lendo sobre xadrez que eu comecei a tomar gosto pela leitura! Mas hoje em dia estudo mais pelos vídeos (Roman's Lab e Smirnov principalmente) e vejo que pude melhorar muito pq tem muita coisa que livro não ensina!

Rewbenio disse...

Obrigado pelos comentários!

Edson Barreto disse...

A vitória do Neri no Sênior é uma grande resposta. É cria dos livros e continua sendo uma grande força do Xadrez Potiguar (porque não dizer nacional e agora internacional). Acredito que os livros vão virar relíquia, mas assim como o mestre Neri, ainda vai demorar muito tempo.

Luiz Jesus disse...

Eu tenho duzentos livros de Xadrez, e leio no onibus ou num banco da praça, ninguem rouba um livro na mão de alguém, mas um smart fone, celular, lep top ou um tablet é possivel, isso faz o livro mais seguro para estudar na rua...
acho que o mundo tem lugar para tudo...

Ernesto disse...

Ótimo texto, e muito bons os comentários, gostei muito da observação do Édson Barreto sobre o Neri, é muito difícil encontrar alguém da nova geração que ganhe do Neri. Acredito que o mais importante não é se estuda por livro ou por computador, mas a dedicação da pessoa.

Quanto a livros de xadrez, tem uma editora no Rio Grande do Sul que tem um acervo muito grande e de ótima qualidade (Artmed).

Prabéns pelo blog,
Ernesto

Alcoforado disse...

A maioria dos enxadristas tem livros que nunca leram por completo. Temos um fascínio em tê-los. Quando emprestamos algum, dificilmente recebemos de volta. Acredito que o verdadeiro enxadrista não trocará os livros pelos computadores.

Anônimo disse...

Os livros de xadrez estão longe de acabar, pelo contrário eles tem aumentado em número, por exemplo quase toda semana tem um livro novo da everyman chess no mercado. O problema é que os livros atuais são em sua maioria mediocres, com o proposito de "popularizalos" os livros tratam os leitores como completos retardados e escondem destes o fato de que para evoluir deve-se sair da zona de conforto. O fato é que um livro fácil tem zero de utilidade e esse é o caso com 95% dos livros publicados atualmente.

andré disse...

Eu jogo xadrez desde 1984 e já tive na minha coleção cerca de 200 livros. Hoje tenho uns 60. Doei muitos deles. Eu acho que modernamente, o estudo pelos livros é apenas uma das formas de estudo.Há muitos vídeos, de grandes mestres, que ensinam aberturas, táticas e finais. Vi um vídeo sobre a defesa francesa, que substitui tranquilamente um livro de 80 páginas. Além disso, há programas de computador que treinam seu xadrez, como o Chess Trainer do GM Milos. Há ainda os tablets, os kobos, kindles, os os livros em formato PDF e Epub. Em vez de um GM escrever um livro, ele oferece palestras e cursos pela internet. Ou seja, tudo indica que os livros não vão acabar, mas vão diminuir muito em suas edições.

Controversial Channel disse...

Rewbenio, Muito bem escrito o texto. Achei interessante o fato de você ter emprestado dois e não te devolverem. Tenho a impressão que outrora Dostoievsk disse que existem dois tipos de otários no mundo: o que empresta o livro e o que devolve.
Abraços

Leonel Silva disse...

Parabéns pelo excelente texto ao qual li com muito entusiasmo. Demonstra um seu sentimento por esporte tal extraordinário. Grande abraço.

Rewbenio Frota disse...

Caros, é uma alegria ver tantos bons comentários. Garanto que todos aqui guardam brilho nos olhos ao ver as elegantes páginas de um livro com diagramas de xadrez.
Obrigado pelo retorno e pela leitura deste texto e deste blog!

Matemática e Xadrez disse...

Meu amigo, conheci seu blog fuçando outros sítios de xadrez como o reino de caissa, xadrez de macaiba, etc, quero dizer que seus textos são ótimos, vc está de parabéns pelo que escreve, fico aguardando suas postagens.
Depois de Leontxo Garcia vem você. Até mais.

Sniperchess14 disse...

Parece que os enxadristas nascidos até a década de 80 tem mania de colecionar livros, mesmo sabendo que não vai ler todos eles kkkkk eu mesmo tenho uns 40 livros impressos e quase 2 mil digitais. Apesar de ter programas de xadrez também, eu uso bastante os livros... praticamente estudo todo dia pelo menos uma hora em livros impressos! Há estudos que demonstram que estudar em uma tela que emite luz não dá 30% do aprendizado em uma superfície que emite luz (papel)! Tenho o programa do Milos e sei que o método é eficaz pela repetição, porém não descarto o uso dos livros impressos.

Ghost Writer disse...

Se por um lado os jogadores de elite não estão publicando sobre xadrez, por outro muitos jogadores do lado de "cá", digo, os mais "fracos" o fazem. Talvez haja por aí livros inúteis de xadrez, não porque os escritores/jogadores são fracos, mas por lhes faltarem didática. Tanto que o NM que treinou até certo estágio o Nakamura tem um elo bem fraco.

Eu acho que a tecnologia pode ser uma boa aliada do xadrez, pelo menos na direção do treinamento. Com o livro você era obrigado a interagir com um tabuleiro de madeira na sua frente. Isso é positivo. Com a tecnologia, vc se relaciona com um tabuleiro virtual e perde um elemento importante que é contato humano (na internet muitos jogadores se tornam explosivos). Na realidade, a presença de um árbitro muda tudo.

Mas, confessemos, treinar como uma ferramenta como o Fritz Trainer inserido num Programa ChessBase é incrível. A interatividade é muito maior.