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sábado, 16 de junho de 2012

Mais um ponto sobre o xadrez na URSS




Estou lendo lentamente (primeiro para demorar a acabar, segundo por escassez de tempo mesmo) o excelente livro 'White King and Red Queen - How the cold war was fought on the chessboard' (que pode ser traduzido como 'Rei Branco e Rainha Vermelha - Como a guerra fria foi lutada no tabuleiro'), de autoria do jornalista Daniel Johnson, publicado pela primeira vez em Londres, Inglaterra, em 2007, pela Atlantic Books.

Capa da edição que estou lendo: Kasparov argumenta algo durante um final contra Korchnoi
(possivelmente a regra 10.2)
Até onde eu li, o livro tem tratado do xadrez na URSS, como ele se tornou um instrumento político de propaganda, das intrigas, dos mestres que foram beneficiados e daqueles que caíram no ostracismo por serem insuficientemente alinhados com os ideais do partido comunista que governava a União Soviética.

Muito se fala sobre a massificação do xadrez promovida pelo partido, o que permitiu que a URSS alcançasse hegemonia mundial a partir do primeiro título mundial de Botvinnik. Porém, hoje li duas passagens no livro que mostram o outro lado, a visão dos cidadãos comuns soviéticos, sobretudo as crianças, mostrando o porquê de ser tão interessante para eles investir seu tempo no aprendizado do jogo. 

Segue o primeiro trecho:
"Unlike the arts, humanities and sciences, which were forced to interpret everything through the prism of Marxism-Leninism, such eclecticism was permited only in chess. Chess could boast a genuine marketplace of ideas that was virtually unique in Soviet intellectual life. In a society where mind-numbing uniformity was imposed on leisure as well as work; where the press and broadcasting largely consisted on propaganda; where literature and the arts were censored; where alcohol and tobacco were the only luxuries; where life for most people was lived in the interstices between fear and tedium - in such a society, chess was an oasis for millions thirsting for mental stimulation."
O trecho pode ser traduzido assim:
"Ao contrário das artes, humanidades e ciências, que foram forçadas a interpretar tudo pelo prisma do Marxismo-Leninismo, tal ecletismo (de ideias) foi permitido a apenas no xadrez. O xadrez poderia se gabar de constituir um genuíno mercado de ideias que foi praticamente único na vida intelectual Soviética. Numa sociedade onde uma tediosa uniformidade foi imposta tanto ao lazer como ao trabalho; onde a imprensa e as radiodifusões em grande parte consistiam em propaganda (do governo); onde a literatura e as artes eram censuradas; onde o álcool e o tabaco eram os únicos luxos; onde a vida para a maioria das pessoas era vivida nos interstícios entre o medo e o tédio - em tal sociedade, o xadrez era um oásis para milhões de pessoas sedentas de estimulação mental."
Segue o segundo trecho, este mais específico para aqueles que almejavam (se tinham capacidade) tornar-se profissionais do jogo na URSS:
"The lot of a chess professional was an enviable one: stipends were higher than average wages, but the biggest lure was the likelihood of foreign travel and foreign-currency earnings. In a centraly planned economy, from which choice had been banished, such opportunities conferred almost unimaginable privilege."
Que pode ser traduzido assim:
"A situação financeira dum profissional do xadrez (na URSS) era invejável: salários eram mais elevados do que a média, mas a maior atrativo era a possibilidade de viajar ao exterior e auferir ganhos em moeda estrangeira. Numa economia centralizada, que bania qualquer opção, tais oportunidades constituíam um privilégio quase inimaginável."
Assim, como se diz por aqui, juntou a fome com a vontade de comer: o governo incentivava o xadrez e impunha a massificação, e a população via como uma das melhores atividades disponíveis e uma das melhores profissões! Apesar de não ser uma situação fácil, pelo menos resta algum consolo no fato de o xadrez ter servido para lançar alguma luz sobre a vida de milhões de pessoas submetidas a um regime totalitário. Pelo menos, dentro das 64 casas, podia-se pensar livremente, ainda que por apenas alguns lances.

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